Pica-Pau O Filme, com Thaila Ayala, não agradou aos fãs do clássico desenho, relembre

Criado por Walter Lantz em 1940, o Pica-Pau (Woody Woodpecker) é um dos personagens mais icônicos da animação, conhecido por sua irreverência, humor politicamente incorreto e gargalhada inconfundível.
Com uma trajetória que inclui curtas animados, aparições em programas de TV e até uma estrela na Calçada da Fama, o pássaro de crista vermelha finalmente ganhou seu primeiro longa-metragem em 2017, intitulado Pica-Pau: O Filme, atração da Sessão da Tarde nesta quarta-feira (30/7), na TV Globo, a partir das 15h25.
Dirigido por Alex Zamm e produzido pela Universal 1440 Entertainment, o filme combina live-action com animação CGI, mas, apesar do potencial nostálgico, decepciona ao não capturar a essência do personagem original.
Como é a história do filme
Pica-Pau: O Filme apresenta uma disputa territorial clássica do personagem. Lance Walters (Timothy Omundson), um advogado imobiliário que perde o emprego após uma declaração contra a preservação ambiental, decide construir uma mansão de luxo em uma floresta próxima à fronteira com o Canadá, terreno herdado de seu avô.
Acompanhado de sua namorada Vanessa (Thaila Ayala) e seu filho adolescente Tommy (Graham Verchere), Lance não contava com a presença de Pica-Pau (dublado por Eric Bauza), um pássaro hiperativo e travesso que vive na árvore que será derrubada para a construção.
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O conflito se intensifica com as trapalhadas do pássaro, que usa seu arsenal de truques para sabotar os planos de Lance, enquanto caçadores furtivos e uma guarda-florestal também entram na história.
A premissa do filme é simples e remete aos curtas clássicos, onde Pica-Pau enfrenta adversários em disputas caóticas. No entanto, o roteiro, escrito por Dave Krinsky e John Altschuler, é previsível e carece de profundidade.
A tentativa de inserir uma mensagem ecológica, com Pica-Pau como uma espécie rara e a guarda-florestal Samantha Bartlett (Jordana Largy) defendendo a natureza, é superficial e não se desenvolve de forma convincente. Além disso, a narrativa tenta equilibrar o humor infantil com apelo nostálgico para adultos, mas falha em ambos.
As piadas são majoritariamente escatológicas ou baseadas em acidentes físicos, o que pode entreter crianças pequenas, mas não ressoa com o público mais velho que esperava o cinismo e a ironia característicos do Pica-Pau original.
Outro ponto fraco é a ausência de personagens clássicos do universo do Pica-Pau, como Zeca Urubu, Leôncio ou a Mini Ranheta, que poderiam ter enriquecido a história e conectado melhor com os fãs. Em vez disso, o filme introduz novos personagens humanos que, em sua maioria, são caricatos e pouco desenvolvidos, como os caçadores furtivos Nate e Ottis Grimes (Scott McNeil e Adrian Glynn McMorran).

Destaques da adaptação
A combinação de live-action e animação CGI é um dos poucos méritos do filme. A animação do Pica-Pau, embora não realista, mantém o estilo cartunesco que remete aos curtas originais, com cores vibrantes e movimentos exagerados. No entanto, a qualidade do CGI é inconsistente, especialmente em cenas com interações entre o pássaro e os atores, onde a integração parece artificial.
Comparado a filmes como Uma Cilada para Roger Rabbit (1988), que também mistura animação e live-action, Pica-Pau: O Filme deixa a desejar em termos de fluidez e imersão.
A direção de Alex Zamm, conhecido por filmes infantis como O Fada do Dente 2, opta por uma abordagem simplista, focada em sequências de comédia pastelão. A trilha sonora é genérica, sem destaque para a icônica “The Woody Woodpecker Song”, que poderia ter sido usada de forma mais criativa para evocar nostalgia. Os créditos finais, animados no estilo clássico, são um ponto alto, mas chegam tarde demais para salvar a experiência.
Quem está no elenco de Pica-Pau O Filme
O elenco humano é liderado por Timothy Omundson, que entrega a melhor atuação como Lance Walters, trazendo um pouco de carisma a um personagem estereotipado. Graham Verchere, como Tommy, tem momentos de simpatia, especialmente na amizade improvável com Pica-Pau, mas o desenvolvimento de seu arco é limitado.
Thaila Ayala, em seu papel como Vanessa, tem presença reduzida, saindo de cena antes da metade do filme, o que desaponta quem esperava uma participação mais significativa da atriz brasileira. A dublagem em português, incluindo a de Ayala dublando a si mesma, sofre com problemas de sincronização e falta de naturalidade, o que prejudica ainda mais a experiência no Brasil, onde o filme teve estreia exclusiva nos cinemas.
Eric Bauza faz um trabalho competente como a voz de Pica-Pau, mas o roteiro não permite que ele explore plenamente o humor debochado do personagem. Em vez do pássaro cínico e provocador dos curtas, o filme apresenta um Pica-Pau mais “bonzinho” e carente, o que dilui sua identidade original.

Pica-Pau: O Filme foi lançado nos cinemas brasileiros em 5 de outubro de 2017, aproveitando a popularidade duradoura do personagem no país, onde os curtas ainda são exibidos na TV aberta. No entanto, o filme foi direto para DVD e streaming em outros mercados, como Estados Unidos e Canadá, indicando baixa confiança do estúdio em seu apelo global.
A recepção crítica foi majoritariamente negativa, com sites como Omelete dando nota 1/5 e destacando a falta de carisma do protagonista e a superficialidade da história. Críticas no AdoroCinema e CinePOP também apontaram a perda da essência do Pica-Pau e a qualidade aquém de outras adaptações de animações, como Garfield: O Filme (2004).
Apesar disso, algumas críticas e comentários de espectadores no AdoroCinema destacaram o apelo nostálgico e a diversão para crianças pequenas, com avaliações positivas elogiando o filme como “melhor que o do Zé Colmeia” e “bom para relembrar a infância”. No Mercado Livre, avaliações de DVDs variam de 3.3 a 5.0, mostrando opiniões mistas entre o público. Financeiramente, o filme arrecadou cerca de US$ 15.3 milhões globalmente, um retorno modesto para seu orçamento de US$ 40 milhões.
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A escolha de estrear o filme no Brasil reflete a força do Pica-Pau no imaginário cultural do país, onde o personagem é um ícone desde os anos 1950. A campanha de marketing, que incluiu pessoas fantasiadas de Pica-Pau visitando cidades como Brasília e recriando cenas de curtas clássicos nas Cataratas do Iguaçu, reforçou essa conexão.
Contudo, a decisão de suavizar o humor do personagem para torná-lo mais “apropriado” para o público infantil moderno foi criticada por fãs, que sentiram falta do Pica-Pau provocador e politicamente incorreto dos curtas originais.
O filme também marca a primeira tentativa de trazer Pica-Pau para um longa-metragem, algo que demorou 77 anos desde sua criação. Apesar do fracasso crítico, a produção abriu caminho para uma sequência, Pica-Pau: As Férias no Acampamento (2024), lançada na Netflix, e uma série de curtas no YouTube, indicando que a Universal ainda vê potencial na franquia.
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Como o Pica-Pau: O Filme termina (alerta spoilers!)
No clímax de Pica-Pau: O Filme, a mansão de Lance Walters é destruída pelas travessuras de Pica-Pau, que usa explosivos improvisados e armadilhas para sabotar a construção. Lance, inicialmente determinado a derrubar a árvore de Pica-Pau, descobre que o pássaro é uma espécie protegida, graças à intervenção da guarda-florestal Samantha Bartlett.
Enquanto isso, os caçadores furtivos Nate e Ottis Grimes tentam capturar Pica-Pau para vendê-lo, mas são derrotados pelo pássaro e por Tommy, que se alia a ele. No final, Lance abandona o projeto da mansão, reconciliando-se com Tommy e aceitando a importância de preservar a floresta. Pica-Pau continua reinando em seu território, com sua gargalhada ecoando enquanto a família Walters deixa a área, e a trama termina com um toque de humor quando o pássaro provoca um último acidente envolvendo os caçadores presos.

Pica-Pau: O Filme é uma oportunidade perdida de revitalizar um personagem clássico. Embora tenha momentos de humor que podem entreter crianças pequenas, a produção falha em capturar o espírito irreverente e caótico do Pica-Pau original, optando por uma trama genérica e atuações inconsistentes.
A presença de Thaila Ayala e a estreia exclusiva no Brasil mostram o apelo do personagem no país, mas não são suficientes para compensar os problemas de roteiro e execução. Para fãs nostálgicos, é recomendável revisitar os curtas clássicos ou esperar por produções futuras que respeitem mais a essência do pássaro mais travesso da animação.
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