Grey Gardens: “É muito difícil perceber a linha que separa o passado do presente”

Grey Gardens

O tele-filme Grey Gardens que chega agora na HBO americana é só a fase mais recente da história louca (e incrível) de Edith Bouvier Beale e sua filha, Edie. Duas reconhecidas “figuras da sociedade” nos anos 1930/40, vindas de uma família tradicional (Edith era tia de Jacquelina Bouvier, futura Kennedy Onassis), passavam sempre seus verões no balneário de East Hampton, ao norte de Nova York, na propriedade que levava o nome de Grey Gardens.

A história de Edith e Edie veio mesmo à tona anos depois, em 1971, quando o Departamento de Saúde da região ameaçou expulsar tia e prima da então primeira-dama Jacqueline Kennedy de Grey Gardens pelas condições precárias em que viviam. A limpeza que salvaria as Beales do despejo revelou a vida nada convencional das duas socialites. Eram agora mãe e filha que viveram por mais de 20 anos praticamente sem contato com o mundo externo, envolvidas em um universo próprio de recordações e projeções de como a vida poderia ter sido fora dali (principalmente para Edie), enquanto moravam em uma mansão abandonada, repleta de bagunça e sujeira, na companhia de vários gatos e até guaxinins, TRISTE.

Grey Gardens

Onde encontrar mais sobre esta história…

Ao mesmo tempo em que a história das Beales virou escândalo nacional, a irmã de Jackie encomendou aos irmãos Albert e David Masley um filme sobre as recordações da família dos verões em East Hampton. Quando os cineastas conhecem a história de Edith e Edie durante as filmagens, decidem abandonar o projeto inicial e viram completamente o rumo do filme, resultando no documentário lançado em 1976.

Vi o documentário pela primeira vez na sexta-feira passada (9) e bateu forte. Fui atrás ao ouvir rapidamente sobre o filme atual, achando que daria algumas boas risadas com mãe e filha, as “excêntricas parentes de Jackie O”. Quando terminei o documentário, fiquei fascinado pela convivência difícil e ao mesmo tempo completamente dependente das duas. Me tocou ainda mais toda a vida que Edie fantasiou e não viveu, e também o jogo que ela faz em sua cabeça (e para as câmeras) tentando justificar porque continuara ali por tanto tempo, por que não se casou nem seguiu sua carreira. Por fora, se convence de que só ficou pelos inúmeros pedidos de sua mãe, era sua única alternativa; por dentro, parece ter vivido todo este tempo com medo de dar o próximo passo sozinha, indo realmente atrás do que desejava (ouch!).

Edie Beale vs. Marc Jacobs inverno 2007
Edie Beale vs. Marc Jacobs inverno 2007

No meio de tudo isso, Edie é uma figura super engraçada. Tem um senso de estilo super forte, apesar de se produzir quase sempre com peças improvisadas e pedaços de roupas amarrados, fazendo uma blusa de cabeça para baixo virar uma saia balonê. Usa sempre algo cobrindo a cabeça (uma doença lhe enfraqueceu os cabelos), muitas vezes pedaços de tecidos presos ou decorados com um broche (na foto, look do inverno 2007 de Marc Jacobs). Ela prepara números de dança para as câmeras, improvisa figurinos (o do final do filme é puro Prada de renda) enquanto tem tiradas ótimas contra as pessoas que moram na região (“Aqui você pode até ser preso por usar um sapato vermelho numa quinta-feira” diz, indignada com a invasão de sua casa no auge do escândalo público). Em outro momento, após explicar sua versátil roupa que a permite transformar sua saia em uma capa, comenta a nova máquina lava-roupas e conclui: “É muito difícil perceber a linha que separa o passado do presente”. Encanta por essa mistura louca de lucidez e fantasia (ou insanidade mental).

Versão filme da história das Beales
Versão filme da história das Beales

A mãe Edith (ou Big Edie) parece não ter as memórias tão contagiadas pela desilusão da filha. Durante todo o documentário, ela relembra vários momentos de sua vida, seu casamento, sua carreira musical enquanto cantarola acompanhando os discos com suas gravações e chega a desmentir várias versões das histórias de Little Edie. Edith também tem top cenas estilosas, como a túnica azul com estampa tropical e o vestido que usa na comemoração de seu aniversário, olha a sapatilha!

Ao longo do documentário, vale notar também a relação que elas criam com Albert e David Masley durante as filmagens. Eles, junto com o jardineiro e um caseiro vizinho, são suas únicas companhias. Na parte final do doc, Edith e Edie têm uma discussão bem forte porque a mãe acha que a filha canta uma música de Marlene Dietrich para seduzir Albert.

O desfecho de Grey Gardens se deu com a morte de Edith, em 1977. Dois anos depois a propriedade foi vendida e Edie seguiu para Nova York, chegou até a elaborar um show tipo cabaret e fazer algumas apresentações. Em seguida se mudou para Flórida, onde morreu em 2002. Na versão do documentário que roda pela internet, há após o filme a gravação de uma conversa telefônica entre Albert e Edie, em 2000, desfecho mega emocionante. Edie se sente realizada ao ouvir sobre o sucesso do documentário (ela era enfim uma estrela) e se mostra super afetuosa com Albert, chega a confessar que eles deveriam ter se casado, mas não sem antes lembrar que ela nunca foi uma republicana e sim uma democrata convicta (é a época das eleições nos EUA, Al Gore x Bush).

Grey Gardens, o musical
Grey Gardens, o musical

A história das Beales foi tão impactante que rendeu especiais na TV, muitas páginas de tablóides (os recortes abrem o filme) e produções sobre o tema, chegou até a ter uma versão adaptada para um musical da Broadway em 2006 (olha um trechinho aqui apresentado no Tony Awards de 2007). O tele-filme da HBO reproduz cenas do documentário enquanto mergulha também no passado de Edith e Edie, tentando mostrar os acontecimentos que levaram mãe e filha a se isolarem de tal forma. Difícil acertar no ponto, mas vale como mais uma espiada no universo desse american dream às avessas.

Pra completar, listinhazona dos links mais interessantes que vi por aí sobre a história, o documentário e o filme, olha só:

Trailer do filme Grey Gardens, com Drew Barrymore e Jessica Lange;

Trailer do documentário Grey Gardens, de 1976, dirigido pelos irmãos Masley (comprei o DVD brasileiro do filme, é ótimo que tem uma entrevista com um dos Masley feita pelo João Moreira Salles!);

It’s Style, DarlingsArtigo bom do LA Times sobre o estilo das Beales (“Se [Edith Beale] estivesse viva hoje, ela seria com certeza uma stylist”) e o trabalho de figurino na adaptação;

Bolsa “Little Edie” e look da coleção de Inverno 2007 de Marc Jacobs inspirados em Edie Beale;

The Cult of Grey Gardens – artigo na Advocate sobre o culto ao documentário original (“What gay man wouldnt identify with somebody who wore outlandish outfits, starred in her own movie and was related to Jackie?”);

The Secret of Grey GardensArtigo original de 1972 da NY Magazine, uma das primeiras a revelar as condições de vida das “excêntricas tia e sobrinha de Jackie Kennedy”;

The Marble Faun – Perfil de Jerry na The New Yorker. Ele foi personagem do documentário original e era um dos únicos que conviviam com as Beales; foi encontrado por acaso, mais de 30 anos depois do documentário, dirigindo um táxi em Nova York;

Reinventing Grey Gardens: A Drawn-Out Drama in Itself – A casa das Beales foi comprada alguns anos após a morte da mãe de Edie, olha no caderno de jardinagem do NY Times as fotos de antes e depois do jardim da casa!

Lê tudo que vale a pena (!!!!!). Agora é plantão pra ver logo o tele-filme, oba.

2 comentários em “Grey Gardens: “É muito difícil perceber a linha que separa o passado do presente””

  1. A história de Edith e Edie nos remete à situação de que nada é eterno. A transitoriedade da vida deve ser encarada de modo natural, como fora encarado por elas. Loucura? Quem realmente há de saber! Mas acredito que é a defesa para sobreviver. Bonita história; triste porém repleta de aprendizado.

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