Quando os desfiles foram abertos para quem, até então, só os via de fora (meses depois) e o fashionismo estourou com sua própria revolução online, o tapete vermelho começou a perder o brilho. Estar alinhada com a moda passou a ser tão importante para a carreira de uma atriz que todo mundo foi atrás de um stylist que lhe garantisse, pelo menos, a não-presença em uma lista das mal vestidas. Para quem procura moda nas cerimônias de premiação, o efeito foi cruel: caíram os looks de arrombo fashion, subiram as produções corretas, sem fascínio de estrelas. Na briga pelo destaque das câmeras 360 graus e pela aprovação do público, aqueles momentos de perder o fôlego que quem assistia tapete vermelho com a Joan Rivers (pré-Melissa) tinha vez ou outra ficaram ainda mais raros.
Quem ganha nessa história são as atrizes que mostram consistência fashion há tempos ou os rostos mais recentes que, por terem o status de novidade que a moda tanto ama, conquistam grifes importantes nos primeiros anos de carreira (ou no primeiro mesmo, case Lupita Nyong’o). O desfile do Globo de Ouro 2015 foi assim: passada uma noite, alguém se lembra (sem obrigação) dos looks usados pelo elenco de ‘Orange Is The New Black’? Consistência de estilo não quer dizer falta de risco, claro. Pensa na Emma Stone, com seu macacão deluxe da Lanvin, para lembrar que as regras do red carpet precisam ser atualizadas rapidamente.
Com o efeito “todo mundo é correto”, fica fácil imaginar os nomes que ganharão destaque antes mesmo de vê-los no pre-show (ou no insta), só passando os olhos na lista de indicados. Veja se você concorda com os meus no top 10 da noite da galeria acima.
As sacolas de plástico, acessório de compras de vida útil curta e provadamente antiecológico, são bons ícones para discutir o consumo desenfreado. Aproximá-las da moda serve para lembrar do lado negativo de tanta oferta de produtos, de tanta provocação do desejo e dos efeitos nocivos ao meio ambiente. Depois de ganharem status de it-bags nas passarelas da Ashish, as sacolas foram ponto de partida para o inverno 2015 de Christopher Shannon na apresentação mais twittada e instagramada do primeiro dia de desfiles da London Collections: Men, semana de moda que dá o start à agenda fashion do ano. Apropriar se elementos “de baixo calão” não é novidade nenhuma, mas, assim como as latas de sopa de Andy Warhol, os ursos de pelúcia de Jeremy Scott ou a lata de Coca-Cola de Marc Jacobs, o resultado visual desce bem em quem consome tanta imagem.
Nas mãos de Shannon, um dos pupilos de Louise Wilson da Central St. Martens com grife homônima desde 2008, as sacolas serviram tanto para cobrir os olhos de que as consome quanto para virar desenhos de linhas divertidas (e mensagens nem tanto) nos suéteres de lã que farão bonito nas araras reais e virtuais da Opening Ceremony, um de seus pontos de venda. Junto com eles (ao lado de latas de refrigerante e o sobrenome do estilista também apareceram nas malhas e nos moletons), o streetwear amplo e descontruído (um dos pilares do evento desde seu início) agrada os olhos de quem quem não depende de uniformes caretas. Tão fácil quanto repostar as imagens é injetar um pouco de modernidade no guarda-roupa com as calças de pernas semiabertas com botões, mais um ponto forte do bloco final da apresentação.
A eficácia de desfiles é questionada a cada nova temporada de moda, mas na LC:M essa turma boa e jovem que se esforça para renovar a careta moda masculina se diferencia dos nomes de menor impacto através de shows coesos, de força estética e com oferta variada de produtos — a receita de um desfile de sucesso. Assim, ainda é desafio para um talento recente achar o equilíbrio entre jaquetas gigantes que ironizam com as batidas doudounes (hoje com versões polidas como as da Moncler) e calças de alfaiataria prontas para o escritório. Shannon já conquistou um pouco mais das atenções da imprensa; vale ficar de olho em como a coleção se desdobra em cliques e nas lojas assim que o inverno gringo (das butiques) chegar.
Uma das melhores coisas do primeiro single oficial de ‘Rebel Heart’, próximo álbum da Madonna, é a pegada house que ela viveu nos melhores dias (ou noites) da vida pré-superstar. Enquanto as paradas listam faixas e mais faixas de um EDM meio sem coração, o piano e o refrão do tipo fim de namoro, ainda que sem força de hit, fizeram a faixa soar menos robótica que qualquer coisa do álbum anterior da cantora. Referência direta ao som do Chicago House, mencionada diretamente pela própria como um dos caminhos possíveis para as mais de dez versões diferentes de ‘Living For Love’, escolhida finalmente como oficial por Madonna e por Diplo, produtor do single.
Pra quem já cansou de violentar o play e quer mais, compartilho o player com um achadinho do Spotify, o álbum ‘The Original Chicago House Classics’. Se são os hits originais ou os clássicos mesmo do gênero, eu ainda não consigo atestar. O que eu garanto é que é uma boa sequência para dar uma animada no fim de semana. Play!
Não é fácil ser sexy. As divisões entre bom gosto, corpo à mostra e elegância não são claras, além de serem redefinidas a cada temporada ou a cada aparição da modelo que tem um talento nato para provocar na medida exata que uma fashionista gosta. Ainda assim, em tempos de loucura fitness/healthy, um look provocante vira recompensa de tanto esforço atrás do corpão. O desafio, além de físico, é estético também: o que define o potencial sexy de um vestido? A abertura do decote ou da fenda? A modelagem justa? A segurança de quem o veste é suficiente?
Na temporada internacional de verão 2015, essa questão apareceu assim que um look bem específico ganhou a passsarela: a entrada de tricô do desfile de Stella McCartney, um vestido de lâ orgânica na altura da canela, sem mangas ou apertos e com duas porções vazadas no quadril. Fácil, com inteligência eco, apresentado às 10hs da manhã de uma segunda-feira fashionista em Paris, fazendo companhia aos looks pijama e aos jeans molengas que poucas não desejariam usar, de fato, numa segunda de manhã.
Céline, verão 2015
O sexy é ferramenta certa para alavancar vendas, isso não é novidade. Em uma temporada marcada por coleções não emocionantes, que tanta gente chamou de comportada e focada em produtos (revisitar os anos 70 é ótimo para desfilar “roupa de verdade” com cara de moda como ternos e macacões, todos ready-to-sell), grifes com radares mais espertos repensaram o look sexy para sair na frente (dos flashes). O resultado mais legal que encontrei foi o foco em zonas erógenas não habituais. Ainda que não seja novidade, quem fez ganhou pontos pela impressão maior de frescor – estético e prático. Tem muita oferta boa: dos flashes da lateral da cintura na Céline, na Dior ou nos coletes perfecto do JW Anderson aos paletós abertos sem nada (ou com muito pouco) por baixo ressaltando a longa faixa frontal do torso como na Lanvin ou os tops “Kim Kardashian” da Givenchy. Dos cortes transversais do corpo nos vestidos purpurinados de festa da Versace ao longo comportado com um único recorte no quadril da nova Mugler (ou seus maiôs). Das saias assimétricas do Vaccarello desenhadas em novo eixo, com recorte das pernas que destaca a parte lateral mais alta de uma das coxas aos ombros sob as luzes do disco club da Saint Laurent. Pensa até no tanto de pele à por debaixo da alfaiataria (gênia) desabada do desfile de Yohji Yamamoto.
É difícil se animar com um look desconfortavelmente sexy hoje em dia, então por mais sugestiva que seja, a sensualidade desses exemplos não parece forçada. Um ponto-contraponto nítido ganhou a passarela da Balmain: o blazer torcido com porções vazadas (que vieram de uma coleção Givenchy do Alexander McQueen) é uma alternativa boa pra quem pode “cortar” o terno. Já os corpaços enjaulados do bloco mais glamazon agrada mais a quem prefere só imagem. Ver o corpaço da Alessandra Ambrosio preso em um desses modelos (aqui) não desce bem, também por parecer desconfortável.
Semanas depois dos desfiles caiu sem querer no meu dashboard do Tumblr uma série de fotos perfeita para ilustrar o assunto. Impression, do americano Justin Bartels, mostra o efeito dos apertos de lingeries, corseletes e sapatos que têm a função de alterar ou realçar diferentes partes do corpo (muito relacionado ao desejo de parecer sexy). Um look forçado, que ganha pelo incômodo, é algo que não tem como ser ainda mais datado na vida real. Se é culto ao corpo o que vale, que as roupas pelo menos o trate bem; sofrimento já basta o da academia.
Saint Laurent, verão 2015Yohji Yamamoto, verão 2015Mugler, Balmain e Lanvin, todos verão 2015Anthony Vaccarello, verão 2015Versace, verão 2015
“Manter a tradição da moda, por sua natureza, é um ato de fé. Em um século que procura destruir cada um de seus segredos, a moda é a encarnação do mistério. É a maior prova de que ainda existe mágica.”