As Branquelas: por que o filme da Sessão da Tarde resiste como fenômeno pop
Quando As Branquelas (White Chicks, no original) estreou em 2004, poucos poderiam prever que a comédia dirigida por Keenen Ivory Wayans se tornaria um dos filmes mais citados e revisitados das últimas duas décadas.
Atração desta terça-feira (11 de novembro de 2025) na Sessão da Tarde, da TV Globo, o filme, com um humor escrachado e situações absurdas, conquistou uma base de fãs fiel, especialmente entre as gerações que cresceram assistindo aos replays ao longo dos anos.
Hoje, mais de vinte anos após o lançamento, o apelo de As Branquelas continua visto como fenômeno — ainda que envolto em debates sobre representações, limites do humor e mudanças de sensibilidade cultural…
A história do filme As Branquelas por trás dos disfarces
A trama gira em torno de dois agentes do FBI, Marcus e Kevin Copeland, interpretados pelos irmãos Marlon e Shawn Wayans. Após uma operação malsucedida, eles recebem a missão de proteger duas socialites brancas que se tornam alvo de um sequestro.
Quando as jovens recusam sair de casa, os agentes decidem se disfarçar como elas, assumindo identidades femininas brancas, com ajuda de uma elaborada maquiagem e próteses, para se infiltrar no círculo social das herdeiras.
O enredo se desenvolve como uma comédia de erros, alternando sátira social, cultura de celebridades e piadas físicas. A premissa absurda, que mistura ação policial e humor pastelão, é o ponto de partida para uma sequência de situações que exploram estereótipos raciais, de gênero e de classe. Na época, o filme foi recebido de forma morna pela crítica, mas rapidamente ganhou o público por sua irreverência e ritmo frenético.
Onde assistir ao filme As Branquelas online
Além da exibição na Sessão da Tarde, que pode também ser assistida ao vivo no app Globoplay, o filme As Branquelas está disponível nas seguintes plataformas de streaming…
O elenco de As Branquelas
O elenco de As Branquelas é um dos principais fatores que ajudaram o filme a se tornar memorável, unindo comediantes experientes e rostos que viriam a se destacar nos anos seguintes.
No centro da produção estão os irmãos Marlon Wayans e Shawn Wayans, que além de protagonizarem a trama, também assinam o roteiro ao lado de Keenen Ivory Wayans, diretor e irmão mais velho da dupla. O trio já era conhecido por outros trabalhos de comédia como Todo Mundo em Pânico e In Living Color, o que garantiu ao filme um tom característico de humor físico, improviso e sátira social.
Entre os coadjuvantes, Terry Crews é talvez o nome que mais se destacou posteriormente. Seu personagem, Latrell Spencer — o atleta rico e vaidoso que se apaixona por uma das “branquelas” —, se tornou um ícone cômico por suas expressões exageradas e pela famosa cena em que canta A Thousand Miles, de Vanessa Carlton. A performance de Crews foi tão marcante que o próprio ator passou a revisitá-la com frequência em programas de TV, consolidando o momento como um de seus marcos de carreira.
Até mesmo propaganda da Shopee já virou temática com o ator e comediante, especialmente nos dias dedicados a promoções especiais, como 11/11.

A atriz Busy Philipps, conhecida por Dawson’s Creek e Cougar Town, interpretou Karen, uma das amigas das socialites falsas, e trouxe para o papel uma energia que equilibrava ingenuidade e sarcasmo. Já Jaime King, no papel de Heather, representava o estereótipo da garota popular dos anos 2000, reforçando o contraste entre o mundo artificial das patricinhas e os protagonistas infiltrados.
Completam o elenco nomes como Lochlyn Munro, no papel do agente Jake Harper, e Frankie Faison, como o chefe do FBI. Ambos deram suporte ao lado mais policial da história, ajudando a manter o ritmo entre a comédia e a ação.
Apesar de não ter sido elogiado pela crítica na época, o grupo demonstrou química e domínio do humor físico, criando personagens facilmente reconhecíveis mesmo décadas depois. Cada ator, dentro de seu tipo e estilo, ajudou a construir um universo que beira o absurdo, mas permanece na memória coletiva por sua singularidade.
Hoje, o elenco de As Branquelas é lembrado tanto pelo talento quanto pela forma como suas interpretações se tornaram parte da cultura pop — com cenas, falas e trejeitos ainda replicados em memes, vídeos e referências culturais ao redor do mundo.
O segredo da longevidade de As Branquelas está em parte na força de sua estética e de suas cenas icônicas. Sequências como a “batalha de dança” em uma boate ou o momento em que uma das “branquelas” canta A Thousand Miles, de Vanessa Carlton, se tornaram símbolos de um tipo de humor exagerado que marcou os anos 2000.
Nas redes sociais, o filme é constantemente resgatado em memes, desafios e referências culturais. A caricatura das “patricinhas” brancas, o visual artificial das protagonistas e os diálogos marcantes foram reinterpretados por novas gerações que enxergam no exagero uma forma de ironia e nostalgia. Em uma era de reboots e redescobertas digitais, o filme funciona quase como um retrato de época, refletindo os exageros e contradições de um período pré-redes sociais.
O lugar na história da cultura pop
Apesar, ou talvez por causa, de suas contradições, o filme consolidou seu espaço na cultura pop. Ele inspirou fantasias de Carnaval, paródias em vídeos virais, e é frequentemente citado em listas de “filmes ruins que amamos”. A estética exagerada, os figurinos artificiais e as expressões caricatas entraram para o imaginário coletivo, tornando-se um símbolo de um tipo de humor visual e físico que hoje é raro nas grandes produções de comédia.
O impacto de As Branquelas também se expandiu para além do cinema: expressões e falas do filme foram incorporadas ao vocabulário cotidiano, e sua trilha sonora é lembrada com afeto. O filme, que custou cerca de 37 milhões de dólares e arrecadou mais de 113 milhões mundialmente, mostrou como uma produção de apelo popular pode ultrapassar seu próprio tempo e gerar um legado imprevisto.
Como o filme As Branquelas termina (com spoilers!)
O desfecho de As Branquelas segue o tom cômico e caótico que marca todo o filme. Após uma série de confusões e disfarces quase desmascarados, Marcus e Kevin Copeland revelam suas verdadeiras identidades durante um baile de gala, expondo também o esquema criminoso de Heather e Megan Vandergeld, as verdadeiras socialites que fingiam ser vítimas.
A cena culmina em uma perseguição e confronto que mistura ação e comédia, encerrando com a prisão dos vilões e a restauração da reputação dos agentes do FBI. O filme termina em clima de reconciliação e humor, com Marcus e Kevin sendo reconhecidos por seus superiores e reforçando suas relações pessoais, especialmente Marcus, que se reconecta com a esposa após os equívocos criados pelo disfarce. O tom final é leve e celebratório, encerrando a história com a mesma mistura de exagero e autoironia que define todo o longa.
O pós-As Branquelas: carreira e impacto das estrelas
Após o sucesso do filme, os irmãos Wayans consolidaram ainda mais sua imagem como nomes fortes da comédia americana. Marlon Wayans seguiu uma trajetória que alterna filmes de humor físico e projetos autorais, incluindo produções na Netflix e o filme Sextuplets (2019), onde ele volta a interpretar múltiplos personagens. Shawn Wayans, por outro lado, manteve um perfil mais discreto, dedicando-se a projetos menores e participações ocasionais.
O elenco coadjuvante também colheu frutos: Busy Philipps e Terry Crews, por exemplo, se destacaram em suas respectivas carreiras. Crews, em especial, transformou sua breve, mas marcante participação — como o jogador Latrell Spencer e o famoso número musical ao som de Vanessa Carlton — em um marco pessoal, citado até hoje em entrevistas e programas de TV.

Os bastidores da música do filme As Branquelas
Nenhum outro elemento de As Branquelas é tão lembrado quanto a cena em que A Thousand Miles, de Vanessa Carlton, toma conta da tela. Lançada em 2002, a canção já era um sucesso pop quando foi escolhida para o filme, mas ganhou um novo significado após ser usada de forma cômica e inesperada.
No longa, a música aparece primeiro quando os irmãos Copeland, ainda disfarçados como as socialites brancas, tentam se comportar de forma convincente dentro do carro — e acabam entoando a melodia de maneira desajeitada. O momento, no entanto, se torna icônico quando o personagem de Terry Crews, Latrell Spencer, interpreta a mesma música com entusiasmo exagerado em uma tentativa de conquistar uma das “branquelas”.
A performance de Crews, marcada por expressões faciais intensas e gestos teatrais, transformou A Thousand Miles em um símbolo instantâneo de humor e ironia. A cena viralizou muito antes da era dos memes e se tornou um marco cultural, sendo constantemente replicada em vídeos, paródias e redes sociais até hoje. A própria Vanessa Carlton já comentou o fenômeno com bom humor, reconhecendo que o filme ajudou a manter a canção viva para uma nova geração.
Mais do que um simples momento musical, A Thousand Miles virou um ponto de interseção entre a cultura pop e o cinema de comédia, mostrando como uma música pode redefinir seu próprio significado quando encontra o contexto certo.
Mais do que um sucesso pontual, As Branquelas sobreviveu porque capturou, com humor e despretensão, um retrato de seu tempo. Em um cenário onde comédias de apelo popular são cada vez mais raras no cinema americano, o filme serve de lembrança de uma era em que o riso vinha do absurdo, do exagero e do politicamente incorreto.
Hoje, a obra se equilibra entre a nostalgia e a revisão crítica. Nem totalmente cancelado, nem totalmente celebrado, As Branquelas permanece relevante por provocar discussões sobre humor, representação e memória cultural. É, em última instância, um retrato de como o cinema pode envelhecer de forma imperfeita — e ainda assim permanecer inesquecível.
