Em A Beleza da Carne, de Francis Bacon, um catálogo de impacto e reflexão

A Beleza da Carne, de Francis Bacon, livro de exposição exibido por Rafa Kalimann

O livro Francis Bacon: A Beleza da Carne, publicado pelo Museu de Arte de São Paulo (MASP) em 2024, acompanha a exposição homônima realizada entre 22 de março e 28 de julho do mesmo ano. Com curadoria de Adriano Pedrosa (diretor artístico do MASP), Laura Cosendey (curadora assistente) e assistência curatorial de Isabela Ferreira Loures, a exposição marcou a primeira mostra individual do pintor irlandês Francis Bacon (1909-1992) no Brasil.

O livro, editado em capa dura com 280 páginas e 158 imagens, é uma obra de referência que não apenas documenta a exposição, mas também oferece uma análise profunda da produção artística de Bacon, com foco em sua abordagem única do corpo humano e nos elementos queer que permeiam sua vida e obra.

Navegue na sequência pelo conteúdo do catálogo, sua relevância no contexto da arte contemporânea, os temas abordados, a contribuição dos autores e a importância da exposição para o público brasileiro, destacando como Bacon abriu caminhos para a representação queer na cultura visual.

Como nasceu a exposição original

Francis Bacon é amplamente reconhecido como um dos maiores pintores do século XX, com uma carreira que abrange mais de seis décadas.

Nascido em Dublin, Irlanda, em 1909, Bacon teve uma infância marcada por um ambiente familiar violento e repressivo, sendo expulso de casa aos 16 anos por seu pai devido à sua homossexualidade. Após períodos em Berlim e Paris, fixou-se em Londres nos anos 1930, onde desenvolveu uma obra visceral que renovou a pintura figurativa em uma era dominada pelo abstracionismo.

A exposição Francis Bacon: A Beleza da Carne no MASP integrou a programação anual do museu dedicada às Histórias da Diversidade LGBTQIA+, ao lado de mostras de artistas como Mário de Andrade, Catherine Opie e Leonilson.

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Exposição Francis Bacon: A Beleza da Carne, no MASP, que deu origem a livro-catálogo de mesmo nome
Exposição Francis Bacon: A Beleza da Carne, no MASP, que deu origem a livro-catálogo de mesmo nome

Com 23 pinturas produzidas entre 1947 e 1988, provenientes de instituições renomadas como Tate (Londres), MoMA (Nova York) e Fondation Beyeler (Suíça), a mostra destacou a fisicalidade do corpo humano em Bacon, com ênfase em retratos e nus masculinos. O catálogo, publicado em inglês e português, reúne ensaios inéditos de dez autores, oferecendo uma leitura multifacetada da obra do artista.

O título A Beleza da Carne deriva de uma entrevista de Bacon ao crítico David Sylvester em 1966, na qual o artista expressou sua fascinação pela “beleza impactante” das peças de carne expostas em açougues. Essa dualidade entre beleza e horror, vida e morte, sedução e destruição, permeia tanto a exposição quanto o catálogo, que exploram como Bacon transformava a carne humana em texturas espessas e oleosas, criando formas quase abstratas que desafiam as convenções da pintura figurativa.

Temas centrais da obra de Bacon em A Beleza da Carne

A fisicalidade do corpo humano

O cerne da obra de Bacon reside na representação do corpo humano, especialmente o masculino, como uma entidade carnal, vulnerável e pulsante. Suas pinceladas vigorosas e distorcidas capturam a textura da pele, músculos e carne, transformando figuras humanas em formas que oscilam entre o figurativo e o abstrato.

O catálogo enfatiza como Bacon, ao pintar retratos e nus, explorava a materialidade do corpo, muitas vezes inspirado por imagens de açougues, fotografias médicas e registros do fotógrafo John Deakin, que Bacon usava como referência em vez de modelos vivos.

Para Laura Cosendey, curadora da exposição, a obra de Bacon transcende a estética, alcançando as profundezas da psique humana. Suas figuras contorcidas expressam angústia, desejo, solidão e vulnerabilidade, confrontando o espectador com emoções cruas. O catálogo analisa obras como Seated Figure on a Couch (1959), Portrait (1962) e Walking Figure (1959-60), destacando como Bacon utilizava cores intensas e pinceladas gestuais para transmitir a carnalidade do corpo.

A perspectiva Queer

Um dos aspectos mais inovadores do catálogo é sua abordagem queer, que destaca como a homossexualidade de Bacon influenciou sua obra e sua vida.

Em uma época em que atos homossexuais eram ilegais no Reino Unido (até 1967), Bacon enfrentou repressão e preconceito, o que se reflete em suas pinturas. O catálogo explora como os retratos de seus amantes, como Peter Lacy e George Dyer, carregam traços de desejo, violência e ambiguidade, misturando excitação e erotismo com tensões emocionais.

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Livro catálogo da exposição A Beleza da Carne, de Francis Bacon
Livro catálogo da exposição A Beleza da Carne, de Francis Bacon

Os ensaios abordam como Bacon subvertia ícones religiosos, como a crucificação e a figura do papa, em resposta à repressão do desejo homossexual imposta pela Igreja Católica. Por exemplo, suas representações de papas, inspiradas em Velázquez, e crucifixos, influenciadas por Rembrandt, questionam o poder religioso e paterno, enquanto exploram a carnalidade do corpo humano.

A curadoria do MASP posiciona Bacon como um pioneiro na introdução de uma presença queer na cultura visual, desafiando normas heteronormativas e binárias.

Influências e referências

O catálogo detalha as diversas fontes que inspiraram Bacon, desde os grandes mestres da pintura, como Velázquez e Rembrandt, até referências contemporâneas, como fotografias, cinema e literatura. Bacon revisitava temas canônicos, como a crucificação, mas os reinterpretava com uma perspectiva moderna, marcada por sua experiência pessoal e pelo contexto social britânico do século XX.

Sua obra também reflete influências de simbolismo religioso, erotismo e até práticas como BDSM, que aparecem em suas representações ambíguas de corpos entrelaçados.

Os autores do catálogo, como Dominic Janes e Paulo Herkenhoff, analisam como Bacon combinava essas referências com sua imaginação erótica, criando imagens que desafiam categorias tradicionais de gênero, sexualidade e humanidade. A exposição e o catálogo destacam, por exemplo, a obra Two Figures with a Monkey (1973), imagem de capa, que mistura erotismo e violência, e Man at a Washbasin (1954) (no fim da página), que explora a solidão e o desejo através de uma figura isolada.

Dualidades e ambiguidade

A dualidade é um tema recorrente na obra de Bacon e no catálogo. Suas pinturas navegam entre beleza e horror, vida e morte, sedução e destruição. O catálogo explora como Bacon via o corpo humano como “carcaça em potencial”, uma ideia expressa em sua frase: “Sempre que entro num açougue, penso que é surpreendente eu não estar ali no lugar do animal.” Essa visão se reflete em suas figuras distorcidas, que parecem gritar ou dissolver-se, evocando tanto a vitalidade quanto a fragilidade da existência.

O catálogo também aborda a ambiguidade entre excitação e violência em Bacon, especialmente em suas representações de corpos masculinos. Suas pinturas frequentemente retratam cenas que podem ser interpretadas como lutas ou encontros eróticos, desafiando o espectador a confrontar suas próprias interpretações. Essa ambiguidade é amplificada pela curadoria, que utiliza uma expografia simples, com paredes brancas e verdes, para destacar a potência emocional das obras.

Exposição do MASP com obras de Francis Bacon
Exposição do MASP com obras de Francis Bacon

O catálogo reúne ensaios de dez autores renomados, cada um trazendo uma perspectiva única sobre a obra de Bacon:

  • Dominic Janes: Explora a interação entre erotismo e cultura material na obra de Bacon, destacando sua imaginação erótica e práticas como BDSM.
  • Francis Giacobetti: Analisa a influência da fotografia na pintura de Bacon, especialmente os registros de John Deakin.
  • Gregory Salter: Examina os retratos de amantes como Peter Lacy e George Dyer, destacando a interseção entre vida pessoal e obra.
  • Isabela Ferreira Loures: Contribui com reflexões sobre a curadoria e a expografia da mostra.
  • Laura Cosendey: Discute a potência da gestualidade de Bacon e sua abordagem queer, enfatizando a dualidade entre vida e morte.
  • Michael Peppiatt: Oferece uma análise histórica da carreira de Bacon, com foco em sua renovação da pintura figurativa.
  • Paulo Herkenhoff: Reflete sobre a carnalidade da pintura de Bacon, conectando-a a conceitos filosóficos como os de Merleau-Ponty.
  • Richard Hornsey: Aborda a influência do contexto social britânico na obra de Bacon, especialmente a repressão da homossexualidade.
  • Rina Arya: Analisa a subversão de ícones religiosos por Bacon como crítica à repressão.
  • Simon Ofield-Kerr: Explora os elementos queer na obra de Bacon, destacando sua relevância para a cultura visual contemporânea.

Esses ensaios, combinados com as 158 imagens de alta qualidade, fazem do catálogo uma obra acadêmica e acessível, destinada tanto a especialistas quanto ao público geral interessado em arte moderna.

O catálogo Francis Bacon: A Beleza da Carne é um marco por diversas razões. Primeiro, ele documenta a primeira exposição individual de Bacon no Brasil, trazendo ao público latino-americano uma oportunidade única de conhecer sua obra em escala significativa.

Obra de Francis Bacon em A Beleza da Carne
Obra de Francis Bacon em A Beleza da Carne

Segundo, sua abordagem queer oferece uma leitura contemporânea de Bacon, destacando aspectos de sua obra que foram historicamente negligenciados pela crítica canônica, que evitava discutir sua homossexualidade para não gerar controvérsias.

Além disso, o catálogo reforça a relevância de Francis Bacon como um renovador da pintura figurativa, que desafiou o abstracionismo dominante de sua época e abriu caminhos para a representação do corpo humano em toda sua complexidade. Sua influência na arte contemporânea é inegável, e a exposição do MASP, junto com o catálogo, posiciona o Brasil como um centro de reflexão sobre arte moderna e diversidade.

Para o público brasileiro, a mostra e o catálogo também oferecem uma oportunidade de dialogar com questões universais, como desejo, repressão, violência e vulnerabilidade, enquanto celebram a diversidade e a potência da cultura queer. A integração da exposição na programação LGBTQIA+ do MASP reforça o compromisso do museu com narrativas inclusivas e plurais.

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