Estes são os detalhes que você perdeu no filme Queen & Slim
Lançado em 2019, Queen & Slim é um road movie de drama romântico e suspense dirigido por Melina Matsoukas, em sua estreia como diretora de longas-metragens, com roteiro de Lena Waithe, baseado em uma história concebida por Waithe e James Frey.
Estrelado por Daniel Kaluuya e Jodie Turner-Smith, o filme narra a história de um casal negro que, após um primeiro encontro, se vê forçado a fugir após matar um policial racista em legítima defesa durante uma abordagem de trânsito.
O que começa como uma noite comum se transforma em uma odisseia pelos Estados Unidos, explorando temas como racismo sistêmico, identidade negra e resistência.
Com uma bilheteria de US$ 47 milhões contra um orçamento de US$ 20 milhões, o filme foi aclamado por sua abordagem ousada e estética marcante, mas também gerou debates por diferentes detalhes de sua narrativa e estética.
Conheça cada faceta do filme, atração da madrugada de sábado (2/8) para domingo na TV Globo, na sessão Supercine, a partir da 1h.
O que acontece no filme Queen & Slim
Queen & Slim começa com um primeiro encontro aparentemente despretensioso entre Queen (Jodie Turner-Smith), uma advogada de defesa criminal, e Slim (Daniel Kaluuya), um vendedor de varejo, em Ohio. A química inicial é tímida, mas a narrativa dá uma guinada dramática quando o casal é parado por um policial branco por uma infração de trânsito menor.
A abordagem, marcada por preconceito racial, escalona rapidamente, resultando na morte do policial por Slim em legítima defesa. Aterrorizados e temendo por suas vidas, Queen e Slim fogem, iniciando uma jornada que os transforma em símbolos involuntários de resistência contra a opressão racial.
O filme, frequentemente comparado a Bonnie & Clyde (1967), é descrito como uma alegoria moderna sobre as tensões raciais nos Estados Unidos, especialmente no contexto do movimento Black Lives Matter. A narrativa combina elementos de road movie, romance e crítica social, enquanto o casal atravessa o país em busca de segurança, encontrando apoio e traição ao longo do caminho.
Leia também…
As escolhas criativas sobre representação da violência
Um dos elementos mais debatidos de Queen & Slim é seu desfecho trágico, que gerou intensos debates entre críticos e espectadores.
Atenção: spoilers a seguir!
No clímax do filme, Queen e Slim, após sobreviverem a inúmeras adversidades, são traídos e mortos por policiais em uma emboscada. A cena final, com seus corpos, foi interpretada como uma crítica à exploração da dor negra pela mídia, mas também destacada como uma escolha narrativa que reforça o trauma sem oferecer esperança.
Essa decisão dividiu opiniões entre espectadores. Para alguns, o final é realista, refletindo a brutalidade do racismo sistêmico que raramente permite finais felizes para pessoas negras em confronto com as autoridades. Jelani Cobb, em artigo para o The New York Times, comparou o filme ao gênero blaxploitation dos anos 1970, destacando que o desfecho reforça a ideia de que a resistência negra muitas vezes termina em tragédia, ecoando filmes como Sweet Sweetback’s Baadasssss Song (1971).
No entanto, outros críticos apontaram que a ausência de redenção narrativa pode alienar o público, especialmente em um filme que celebra o amor e a comunidade negra. Um espectador, em crítica publicada no AdoroCinema, expressou frustração, dizendo que “o casal preferir se divertir do que fugir” e a morte de um policial negro por um jovem negro no filme foram decisões narrativas que “estragaram” a experiência.
Veja também…
Curiosidades e bastidores do filme Queen & Slim
Nomes nunca revelados
Uma das curiosidades mais intrigantes de Queen & Slim é que os protagonistas nunca são chamados por seus nomes verdadeiros no filme. Os apelidos “Queen” e “Slim” são atribuídos por outros personagens, simbolizando como a sociedade projeta identidades sobre eles. Essa escolha reforça a universalidade de sua história, sugerindo que poderiam ser qualquer pessoa negra enfrentando o racismo sistêmico.

Estreia de Melina Matsoukas
A diretora Melina Matsoukas, conhecida por videoclipes icônicos como Formation de Beyoncé, trouxe sua estética visual vibrante para o filme. Sua experiência em videoclipes é evidente na fotografia estilizada, nas cores saturadas e na trilha sonora marcante, que inclui artistas como Roy Ayers e Lauryn Hill.
Matsoukas foi elogiada por transformar o filme em uma carta de amor à cultura negra, com detalhes como figurinos e cenários que celebram a estética afro-americana.
Referências a Green Book
O filme faz críticas sutis a Green Book (2018), um longa premiado que foi acusado de simplificar questões raciais para agradar audiências brancas.
Em Queen & Slim, há momentos em que o casal discute narrativas de “salvadores brancos”, desafiando estereótipos e questionando a autenticidade de histórias que suavizam o racismo.
Elenco estelar em papéis secundários
Além de Kaluuya e Turner-Smith, o filme conta com atuações de apoio de nomes como Chloë Sevigny, Flea (do Red Hot Chili Peppers), Bokeem Woodbine e Indya Moore.
Cada personagem secundário adiciona camadas à narrativa, representando diferentes facetas da experiência negra.
Inspiração em eventos reais
Embora a história seja fictícia, Lena Waithe se inspirou em casos reais de violência policial e na tensão racial nos EUA. O filme foi lançado em um momento em que o movimento Black Lives Matter ganhava força, o que amplificou sua relevância.
Veja também…

Queen & Slim foi anunciado em julho de 2018, com Daniel Kaluuya já escalado como protagonista. A produção foi da Universal Pictures, com um orçamento modesto de US$ 20 milhões. As filmagens ocorreram em locações espalhadas pelos Estados Unidos, capturando a diversidade geográfica e cultural do país, desde Ohio até Nova Orleans.
A trilha sonora, composta por Devonté Hynes, e a direção de fotografia, de Tat Radcliffe, foram amplamente elogiadas por sua capacidade de transmitir emoção e contexto cultural. O figurino, desenhado por Shiona Turini, também se destacou, com roupas que refletem a identidade e a resiliência dos personagens.
O filme estreou no AFI Fest em 14 de novembro de 2019 e foi lançado nos cinemas em 27 de novembro do mesmo ano. Queen & Slim recebeu críticas majoritariamente positivas, com elogios às atuações de Kaluuya e Turner-Smith, à direção de Matsoukas e à relevância de sua mensagem. No Rotten Tomatoes, o filme mantém uma aprovação de 83% com base em 256 críticas, com consenso de que é “um drama social poderoso e visualmente impressionante”.
Comercialmente, o filme foi um sucesso moderado, arrecadando US$ 47 milhões globalmente. Nos Estados Unidos, teve uma estreia forte, com US$ 15,8 milhões em seu fim de semana de abertura, apesar de ser exibido em apenas 1.690 salas. No Brasil, onde foi intitulado Queen & Slim: Os Perseguidos, o filme também encontrou um público receptivo.
Leia também…

Os espectadores destacaram a capacidade do filme de equilibrar tensão e leveza. Uma crítica no AdoroCinema descreveu o filme como “esplêndido” e “tocante”, elogiando a “crítica social precisa e cirúrgica” e a representatividade. No entanto, houve críticas à narrativa, com alguns apontando que certas escolhas do casal, como momentos de lazer em meio à fuga, pareceram inconsistentes.
Qual é a mensagem do filme Queen & Slim
Queen & Slim é, acima de tudo, um filme sobre a experiência negra nos Estados Unidos. Ele aborda temas como:
Racismo sistêmico: A abordagem policial inicial é um microcosmo das injustiças enfrentadas por pessoas negras, refletindo a realidade de casos de violência policial amplamente documentados.
Amor e comunidade: Apesar da tragédia, o filme celebra o amor entre Queen e Slim e a solidariedade de comunidades negras que os ajudam em sua jornada.
Resistência e legado: O casal se torna um símbolo de resistência, com seu vídeo viralizando e inspirando protestos. O filme questiona o custo dessa resistência e o peso de se tornar um ícone.
O filme foi descrito como “um filme para a era do Black Lives Matter” pela Folha de S.Paulo, destacando sua relevância em um momento de intensos debates sobre raça e justiça. Sua estética e narrativa também o posicionaram como uma obra de arte que presta homenagem à cultura negra, com referências visuais e musicais que ressoam com a audiência.
Outros aspectos geraram discussão:
- Comparação com Bonnie & Clyde: Enquanto alguns críticos, como os da Folha, viram a comparação com Bonnie & Clyde como positiva, outros argumentaram que ela simplifica a narrativa, ignorando o contexto racial que diferencia Queen & Slim.
- Representação de personagens secundários: A decisão de incluir um jovem negro que atira em um policial negro foi controversa, com alguns espectadores sentindo que isso diluía a mensagem central do filme.
- Falta de esperança: Alguns críticos argumentaram que o filme, embora poderoso, oferece pouca esperança, o que pode ser emocionalmente exaustivo para o público negro que busca narrativas de empoderamento.

Queen & Slim é um marco cultural que desafia convenções e provoca reflexões profundas sobre raça, amor e resistência. Seu final polêmico, embora divisivo, reforça sua mensagem de que a luta contra o racismo sistêmico é árdua e muitas vezes trágica. A direção visionária de Melina Matsoukas, combinada com as atuações viscerais de Daniel Kaluuya e Jodie Turner-Smith, faz do filme uma obra inesquecível.
Seja pelas curiosidades de produção, como a escolha de não revelar os nomes verdadeiros dos protagonistas, ou por sua capacidade de capturar o zeitgeist de uma era marcada por protestos contra a injustiça racial, Queen & Slim permanece relevante.
Disponível em plataformas como Prime Video e em DVD, o filme continua a inspirar conversas e a emocionar audiências ao redor do mundo.
