Conheça a história real emocionante de “Os Inventores”, filme da Sessão da Tarde
Com George Lopez, Jamie Lee Curtis e Marisa Tomei, atração desta quinta-feira (23/4) na TV Globo, äs 15h25, reconstitui o feito improvável de quatro adolescentes indocumentados que venceram o MIT numa competição de robótica da NASA com um robô feito de peças de carro
FICHA TÉCNICA
Título original: Spare Parts
Direção: Sean McNamara
Roteiro: Elissa Matsueda, baseado no artigo “La Vida Robot”, de Joshua Davis (Wired, 2005)
Produção: David Alpert, Rick Jacobs, Leslie Kolins Small, George Lopez e Ben Odell
Fotografia: Richard Wong
Música: Andres Levin
Distribuição: Lionsgate Films
Coprodução: Pantelion Films / South Shore / Televisa
País: EUA/México
Ano: 2015
Duração: 83 min
Classificação: 12 anos
Gênero: Drama biográfico
A história real por trás do filme ‘Os Inventores’
Em 2004, quatro adolescentes indocumentados da Carl Hayden Community High School, em Phoenix, no Arizona, fizeram o improvável: inscreveram-se numa competição nacional de robótica subaquática e derrotaram o MIT.
Oscar Vázquez, Lorenzo Santillán, Cristian Arcega e Luis Aranda eram filhos de imigrantes mexicanos, estudavam numa escola pública subfinanciada do lado oeste de Phoenix e nunca tinham visto o oceano. A equipe adversária que derrotaram na final era patrocinada pela ExxonMobil e dispunha de um orçamento dez vezes maior.
Armados de determinação e com um robô batizado de “Stinky”, os quatro jovens, junto com seus orientadores Fredi Lajvardi e Allan Cameron, provaram que o gênio não conhece CEP nem status de imigração.
Com um orçamento de menos de 800 dólares, eles construíram seu veículo de operação remota (ROV) do zero, enquanto equipes universitárias costumavam gastar dez mil dólares ou mais. O “Stinky” foi testado e retestado numa piscina local.
A equipe nunca tinha visto o oceano antes, quanto mais competido em nível nacional.
A história foi coberta pelo jornalista Joshua Davis, que escreveu sobre o triunfo da equipe na revista Wired em 2005. Davis publicou também um livro com o mesmo título, “Spare Parts: Four Undocumented Teenagers, One Ugly Robot and the Battle for the American Dream”.
Dez anos depois, o feito virou filme, e é esse drama que a TV Globo exibe nesta quinta-feira na Sessão da Tarde.
Como é o filme produzido a partir desta história
“Os Inventores”, título original “Spare Parts”, é um drama biográfico de 2015 dirigido por Sean McNamara.
A trama acompanha a trajetória de quatro estudantes mexicanos do ensino médio: Oscar, Cristian, Lorenzo e Hector. Apaixonados por robótica, eles se unem e decidem se inscrever em um disputado concurso de robótica subaquática promovido pela NASA.
Apesar do talento e da determinação, vêm de famílias humildes e nunca tiveram acesso às tecnologias mais avançadas em suas escolas. Ainda assim, os quatro amigos precisam enfrentar a equipe formada por alunos do MIT, uma das universidades mais renomadas do mundo.
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O enredo segue a fórmula clássica do azarão em quem ninguém apostava fichas, mas o que o separa de centenas de filmes similares é que a história é verdadeira, documentada, e carrega um peso político que vai muito além da competição de robótica: o de jovens brilhantes presos num sistema de imigração que não sabe o que fazer com seu talento.
O que acontece no filme ‘Os Inventores’
A narrativa começa quando Oscar Vázquez (Carlos PenaVega) tenta se alistar no Exército americano. Criado como americano, ele é barrado porque é indocumentado; nasceu no México e entrou ilegalmente nos EUA quando criança.
Sem esse caminho, Oscar descobre um folheto sobre uma competição de robótica subaquática patrocinada pela NASA e pela Marinha americana. A ideia parece absurda: uma escola pública no deserto do Arizona competindo contra universidades de elite numa competição aquática.
Fredi Cameron (George Lopez), um engenheiro com doutorado que, depois de uma tragédia pessoal, aceita uma vaga de professor substituto na escola, torna-se o orientador do clube de robótica quase sem querer.
Oscar recruta Cristian (David Del Rio), gênio dos computadores; Fredi pressiona Lorenzo Santillan (José Julián), um mecânico autodidata que caminhava para uma vida de pequenos delitos, a entrar no grupo; e os quatro são completados por Hector (J.R. Villarreal), cuja força física será necessária para manobrar o robô na competição. Gwen (Marisa Tomei), professora de matemática, e a diretora Karen Lowry (Jamie Lee Curtis) oferecem apoio lateral ao grupo.
A construção do robô começa com peças de sucata: motores de limpador de para-brisa, canos de PVC e uma prancheta como base.
O orçamento é de 800 dólares. O robô recebe o apelido de “Stinky”.
A competição acontece na Universidade da Califórnia em Santa Bárbara. Lá, os garotos pela primeira vez veem o oceano, e precisam fazer seu robô funcionar dentro d’água.
Elenco do filme ‘Os Inventores’: quem é quem
George Lopez, como Professor Fredi Cameron
Lopez, mais conhecido como comediante, encarna Fredi Cameron num raro papel dramático, vestindo visivelmente o coração na manga numa história real que claramente lhe importa. No filme, o personagem é uma fusão de dois professores reais: Faridodin “Fredi” Lajvardi e Allan Cameron, que realmente orientaram a equipe na competição de 2004.
Lopez foi também um dos produtores do filme, o que explica a centralidade do projeto em sua carreira. Vencedor do Grammy por seu especial de stand-up e dono de uma das sitcoms de maior audiência entre a comunidade latina nos EUA, ele usou a sua influência para fazer essa história chegar às telas.
Jamie Lee Curtis, como diretora Karen Lowry
Indicada ao Oscar e vencedora do Globo de Ouro pela série “Scream Queens”, Jamie Lee Curtis interpreta a diretora da escola com leveza e humor. Curtis é divertida e ágil como a diretora gentil mas firme, que fica animada com as primeiras boas notícias em muito tempo na escola.
É um papel de apoio, mas com presença marcante. Fato curioso: George Lopez e Jamie Lee Curtis já haviam contracenado juntos em outra produção, a comédia da Disney “Perdido pra Cachorro” (2008).
Marisa Tomei, como professora Gwen Kolinsky
O elenco conta com Marisa Tomei, vencedora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante em 1993 por “Meu Primo Vinny”. Ela interpreta Gwen, professora de matemática que apoia o grupo, e que também serve como interesse romântico do professor Cameron na trama.
Ela é uma mãe solteira com uma filha espevitada em idade escolar. A presença de Tomei eleva o nível do elenco e dá credibilidade dramática a cenas que poderiam escorregar para o clichê.
Carlos PenaVega, como Oscar Vázquez
O ator e cantor Carlos PenaVega, que ficou conhecido pelo público jovem americano pela série “Big Time Rush”, interpreta o protagonista Oscar, líder natural da equipe, disciplinado pelo treinamento do ROTC (programa de oficiais reservistas) e bloqueado pelo status de indocumentado.
PenaVega divide romance com sua esposa na vida real, Alexa PenaVega, que interpreta Karla, a namorada de Oscar, uma cidadã norte-americana.
José Julián, como Lorenzo Santillan
Julián interpreta Lorenzo, o mecânico autodidata que o professor Cameron recrutou à força; Lorenzo enfrentava suspensão por problemas disciplinares e entrou no clube como condição para continuar na escola. Sua trajetória de garoto a caminho da marginalidade que encontra propósito na engenharia é um dos arcos mais emocionantes do filme.
David Del Rio, como Cristian Arcega
Cristian é o gênio dos computadores, o mais introvertido dos quatro e o mais intuitivo na hora de resolver os problemas técnicos do robô. Del Rio constrói o personagem com contenção e precisão, sem precisar de grandes falas para se fazer presente.
Esai Morales, como Pablo Santillan
Veterano do cinema latino, conhecido por “La Bamba” (1987), Morales interpreta o pai de Lorenzo, um homem que não acredita no filho e funciona como o obstáculo emocional dentro de casa que espelha os obstáculos sistêmicos do mundo externo.
Bastidores da produção e da direção do filme
Sean McNamara é um diretor especializado em filmes familiares e de superação; sua filmografia inclui “Soul Surfer” (2011), sobre a surfista Bethany Hamilton que perdeu um braço num ataque de tubarão. “Os Inventores” segue o mesmo DNA: história real de superação, apelo familiar, mensagem clara.

O filme é uma coprodução internacional entre EUA e México, a primeira produção sob o acordo de cinema e TV de George Lopez com a Pantelion Films e a South Shore, a joint venture entre a Lionsgate e a gigante mexicana de mídia Televisa.
Grande parte das filmagens foi feita em locações em Albuquerque, no Novo México. O orçamento foi de 3,6 milhões de dólares. Para uma produção hollywoodiana, é um valor pequeno, e talvez seja justamente isso que dê ao filme uma autenticidade que produções mais grandiosas às vezes perdem.
Os robôs foram construídos por estudantes de verdade
Todos os veículos de operação remota (ROVs) vistos no filme foram construídos e, em alguns momentos de ação na tela, operados por estudantes e ex-alunos de três equipes do programa FIRST: Team 842, Team 39 e Team 1726. As equipes construíram um total de 24 ROVs para a produção. O elenco e a equipe ficaram impressionados com a capacidade dos estudantes de projetar, construir e operar todos os veículos.
George Lopez foi também produtor
O ator não só estrelou o filme como participou da produção executiva, sendo um dos responsáveis por levantar o financiamento e garantir que a história chegasse às telas. O projeto foi o primeiro fruto de seu acordo com a Pantelion Films, braço da Lionsgate voltado para o mercado latino.
O robô real se chamava “Stinky”
Na vida real, o robô da Carl Hayden High School tinha esse apelido, “fedorento”, em inglês, dado pelos próprios estudantes. O nome foi mantido no filme.
A história foi coberta antes por um documentário
A história dos jovens inventores já havia sido retratada um ano antes no documentário “Underwater Dreams” (2014), escrito, dirigido e produzido por Mary Mazzio.
O artigo original da Wired foi publicado em 2005
Joshua Davis cobriu o feito da equipe da Carl Hayden numa reportagem chamada “La Vida Robot”, “A Vida Robô”, que circulou amplamente nos Estados Unidos e gerou uma onda de doações para os estudantes, incluindo bolsas de estudo para Oscar Vázquez.
O personagem de Lopez é uma fusão de dois professores reais
Na vida real, foram dois educadores que orientaram a equipe: Faridodin “Fredi” Lajvardi, professor de ciências, e Allan Cameron, professor de computação. O filme fundiu os dois num único personagem para simplificar a narrativa.
Os quatro estudantes eram todos filhos de imigrantes
Esse detalhe, que no filme é tratado com naturalidade, como parte do cotidiano da comunidade retratada, é central para entender a magnitude do feito. Eles não podiam se alistar no Exército, não tinham direito a bolsas federais e viviam sob a ameaça constante de deportação. Mesmo assim, venceram uma competição universitária nacional.
Oscar Vázquez se alistou depois de se deportar voluntariamente
Oscar Vázquez nasceu no México em 1986 e é hoje engenheiro americano e veterano da Guerra do Afeganistão. Após a competição, ele frequentou a Universidade do Estado do Arizona, mas como indocumentado, enfrentou barreiras de tuição.
Para regularizar sua situação, decidiu se autodeportar ao México, trabalhou como colhedor de feijão enquanto pedia residência legal, foi recusado e ficou preso no processo durante anos, até ser contemplado por uma lei federal. Depois de regularizado, se alistou no Exército, foi ao Afeganistão e voltou.
Hoje, vive no Montana com esposa e dois filhos e trabalha para uma empresa ferroviária.
Lorenzo Santillan não conseguiu realizar seu sonho de virar engenheiro
Santillan e seus colegas de equipe venceram, mas como imigrantes indocumentados entrando na faculdade antes do DACA (programa que deu certas proteções a imigrantes trazidos aos EUA na infância), Santillan não era elegível para bolsas de estudo. Sua trajetória após o ensino médio foi muito mais dura do que a de Oscar, e sua história é um lembrete de que a vitória na competição não apagou as barreiras do sistema.
O Rotten Tomatoes deu 58% ao filme
A crítica especializada recebeu o filme com reservas, apontando previsibilidade narrativa e clichês do gênero “professor inspirador”, mas o público respondeu com calor muito maior. O coração da história real sustenta o que a fórmula hollywoodiana às vezes não consegue.
O que os críticos disseram sobre o filme “Os Inventores”
A recepção da crítica especializada foi mista, porém respeitosa. O consenso do Rotten Tomatoes afirma que o filme é eficaz o suficiente para quem gosta do gênero de dramas inspiradores, embora a maioria já tenha visto esses beats narrativos funcionarem de forma mais poderosa em outros filmes.

O site Roger Ebert destacou o que de fato diferencia o filme da concorrência: o que verdadeiramente salva “Spare Parts” de ser apenas um especial televisivo glorificado é que esses meninos nascidos no México, que frequentam uma escola de classe trabalhadora em território americano, são todos imigrantes indocumentados que vivem com o medo constante de que eles ou seus familiares sejam deportados a qualquer momento.
O Metacritic registrou nota 50 de 100, classificando-o como “misto ou mediano” entre os críticos. Mas o IMDb, que reflete mais a opinião do público geral, aponta 7,2 de 10, diferença expressiva que demonstra que “Os Inventores” funciona melhor como experiência emocional do que como objeto de análise formal. Para uma tarde de quinta-feira, o balanço é preciso.
Como o filme “Os Inventores” termina: alerta spoiler!
(Atenção: o trecho a seguir revela o desfecho completo do filme)
A competição final acontece na Universidade da Califórnia em Santa Bárbara. Os garotos da Carl Hayden chegam ao local pela primeira vez na vida, e pela primeira vez veem o oceano. É uma das imagens mais simbólicas do filme: quatro meninos do deserto do Arizona diante do Pacífico, antes de mergulharem numa competição aquática.
O desafio exige que os robôs manobreiem subaquaticamente para coletar “objetos de resgate”, esferas representando minerais oceânicos, e, como bônus, realizem uma barra fixa. As regras são rigorosas: tempo limitado, precisão milimétrica e julgamento por engenharia geral.
Durante a competição, o Stinky enfrenta uma crise técnica: os estudantes descobrem um vazamento que ameaça curto-circuitar o sistema elétrico do robô. A equipe localizou o vazamento durante a competição, solucionou o problema no local e voltou para a piscina. O protótipo simples dos alunos coleta os itens com precisão. Um momento chave ocorre quando o robô de MIT encalha, destacando a vantagem da simplicidade. Os juízes, surpresos, elogiam a inovação de baixo custo.
A equipe da Carl Hayden vence a competição. A vitória não é limpa e não é épica no sentido hollywoodiano: é tensa, suada, construída sobre improvisos. É exatamente essa a imagem que o filme quer deixar: que o gênio não precisa de laboratórios sofisticados, que a engenharia não pertence só a quem tem dinheiro para estudar no MIT.
No encerramento, o professor Cameron tem sua jornada pessoal resolvida: redescobre sua paixão pelo ensino, encontra um novo propósito após a tragédia que o levou à deriva, e começa a construir uma relação com Gwen. A diretora da escola, que apostou no grupo, recebe as notícias da vitória com alívio e orgulho. Os quatro garotos voltam a Phoenix como heróis locais.
Uma cena pós-créditos mostra os garotos anos depois: Oscar como engenheiro da Marinha, Cristian em uma empresa de tecnologia, Luis e Lorenzo em carreiras estáveis. O filme termina com uma dedicatória aos heróis reais, enfatizando que a vitória não apaga as desigualdades, mas prova o potencial imigrante.
O que o filme não mostra e é importante saber: na vida real, a história dos quatro depois de 2004 foi muito mais tortuosa do que os créditos finais sugerem. O jornalista Joshua Davis observou que o triunfo desses quatro garotos inspirou toda uma geração de estudantes na Carl Hayden, mas que a experiência deles nos anos seguintes não foi inteiramente positiva.
Lorenzo Santillan não conseguiu realizar seu sonho de ser engenheiro. Oscar Vázquez levou anos para regularizar sua situação imigratória. A vitória foi real, e também foi insuficiente para mudar as estruturas que os aprisionavam. Esse é o dado que a versão hollywoodiana suaviza, mas que a história verdadeira carrega.
Os Inventores · Sessão da Tarde · TV Globo
Quinta-feira, 23 de abril · Após Terra Nostra · Classificação: 12 anos · Duração: 83 minutos