Martine Rose, verão 2019

Algum dia a moda desempaca do olhar sobre os anos 1990 – a década é referência ótima (como dito aqui), mas notar tanta interpretação nas passarelas e adjacências também confirma o quanto muito do que veio depois não conseguiu superá-la. Revisar o passado é essencial, nostalgia pode virar diversão, mas o olhar à frente é outro  ótimo caminho para buscar novas respostas.

Enquanto a onda não passa, a gente aproveita quem encontra voz mais criativa através das memórias. Caso do desfile de Martine Rose, estilista inglesa que comanda a marca masculina homônima desde 2007. Como é de seu costume, ela saiu da sala de desfile padrãozinha e colocou as novas roupas já numa rua ao norte de Londres. Convidados amaram – foi hit no feed e todos elogiaram a trilha sonora (que a gente, até agora, não consegue ouvir em nenhuma frente online, uma pena).

Inspirada pela cena eletrônica que viveu, Martine apresentou remix de roupas conhecidas em ideias animadas como a de uma calça com textura de croco, mas em plástico transparente ou o blazer que perde caretice corporativa pelo efeito matelassado. Levar a loucurinha raver da época ao dia a dia passa por carregar jaqueta de patchwork improvável, jeans de corte bootcut preciso ou mix cultural, animal ou esportivo proposto pelo styling de Tamara Rothstein. Se o vocabulário de moda lhe parece familiar, saiba que Martine é consultora criativa de Demna Gvasalia na Balenciaga. Note também dois acessórios: a brincadeira com o sapato de bico quadrado (pavor dos ravers de outrora e dos entendidos de hoje) e os óculos de sol zero minimal, novidades na passarela da marca.

Quando esta coleção é comparada ao que, digamos, Bella Hadid veste, fica mais clara aqui sua reflexão: conduzir o potencial disruptivo do passado para chacoalhar a apatia (também) da moda atual. Sob olhar afiado, ela impõe a cultura underground como movimento cultural legítimo que merece ser levado em consideração como qualquer outro (ainda um drama pra muita gente) e como bandeira importante a ser levantada contra rompantes de conservadorismo que assombram a cidade no fim desta década.

Tem história, tem comentário social, tem diversão e habilidade nas inovações. Quem sou eu pra cobrar novidade? Sob olhar tão legal, dá até pra parar de reclamar sobre os problemas da nostalgia e focar no que se QUASE tem agora. Viver o presente ficaria, de fato, muito mais fácil com uma coleção dessas completa no closet. Pode mandar, obrigado!





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