Isso é o que o filme I Wanna Dance With Somebody não conta sobre a história de Whitney Houston
Imagine uma voz que ecoa como um hino eterno, capaz de atravessar gerações e continentes, mas também de carregar as cicatrizes de uma vida vivida no limite.
Whitney Houston, conhecida como “A Voz”, não foi apenas uma cantora; ela foi um furacão cultural que redefiniu o pop, o R&B e o gospel, vendendo mais de 220 milhões de discos no mundo todo e conquistando 415 prêmios – um recorde reconhecido pelo Guinness World Records em 2009 como a artista feminina mais premiada de todos os tempos.
Seus hits, como “I Will Always Love You” e “I Wanna Dance with Somebody (Who Loves Me)”, não são só músicas; são trilhas sonoras de casamentos, festas e corações partidos há décadas.
Nesta segunda-feira, 6 de outubro de 2025, a TV Globo traz essa história a partir das 23h30, na sessão Tela Quente, que exibe “I Wanna Dance With Somebody: A História de Whitney Houston” (2022), dirigido por Kasi Lemmons e estrelado por Naomi Ackie.
É uma cinebiografia autorizada que mergulha na ascensão meteórica da diva, com performances eletrizantes e uma trilha sonora que usa as gravações originais de Whitney para recriar momentos icônicos. Mas, como todo biopic, o filme é uma versão editada da realidade – um recorte que prioriza o brilho das luzes do palco, deixando sombras profundas na escuridão.
O que I Wanna Dance With Somebody não conta? Os detalhes mais crus, os legados esquecidos e as controvérsias que moldaram Whitney além dos holofotes.
Aqui, mergulhe por o que o público deixou de ver nas telas e os fãs registraram como desvios da cinebiografia da artista.
História e bastidores do filme sobre Whitney Houston
Lançado em dezembro de 2022 nos EUA e chegando aos cinemas brasileiros em janeiro de 2023, I Wanna Dance With Somebody é uma produção de US$ 45 milhões da TriStar Pictures, com roteiro de Anthony McCarten – o mesmo de Bohemian Rhapsody.
Dirigido por Kasi Lemmons (de Harriet), o filme segue Whitney (Naomi Ackie) desde sua infância em Nova Jersey, passando pela descoberta por Clive Davis (Stanley Tucci), o romance com a assistente Robyn Crawford (Nafessa Williams), o casamento turbulento com Bobby Brown (Ashton Sanders) e o declínio nos anos 2000.
Com 146 minutos de duração, se apresenta como um espetáculo visual e sonoro: Ackie dubla poucas cenas, mas o lip-sync com as faixas originais de Houston cria arrepios autênticos, como na recriação do hino “The Star-Spangled Banner” no Super Bowl de 1991.
O elenco brilha: Tucci captura a astúcia paternal de Davis, enquanto Tamara Tunie, como a mãe Cissy Houston, transmite a rigidez amorosa de uma lenda do gospel.
O filme arrecadou US$ 59,8 milhões nas bilheterias globais, mas dividiu a crítica – 43% de aprovação no Rotten Tomatoes, com elogios à performance de Ackie e críticas à estrutura “genérica” de biopic, que parece “uma entrada da Wikipedia em movimento”.
O público brasileiro amou: no AdoroCinema, notas médias acima de 4 estrelas, com fãs destacando o “espetáculo emocional” das performances. Mas, como notou o Plano Crítico, “é menos biografia e mais ficção”, focando na ascensão e suavizando as quedas.

O que é verdade ou ficção no filme sobre Whitney Houston
O filme acerta em capturar o “boom” de Whitney nos anos 1980. Seu álbum de estreia, Whitney Houston (1985), vendeu 25 milhões de cópias e gerou três hits no topo da Billboard Hot 100 – um feito inédito para uma mulher.
O segundo, Whitney (1987), quebrou recordes com sete singles consecutivos em #1, superando até os Beatles. E a trilha sonora inesquecível do filme “O Guarda-Costas” (1992), com 45 milhões de cópias, tornou-se o álbum mais vendido por uma mulher na história, impulsionado por “I Will Always Love You”, que ficou 14 semanas no topo e vendeu 24 milhões de singles.
Mas um dos principais vetores o que o filme omite é o pioneirismo racial. Whitney foi a primeira artista negra a conquistar três álbuns certificados como diamante pela RIAA (equivalente a 10 milhões de vendas cada nos EUA). Ela quebrou barreiras na MTV, que na época era criticada por racismo – seu clipe de “How Will I Know” foi um dos primeiros de uma negra a rotacionar amplamente.
O filme menciona vaias no Soul Train Awards de 1989 por ser “branca demais” para o público negro, mas não aprofunda como isso a marcou: Whitney defendeu-se em entrevistas reais, dizendo que sua música era para todos, não para “um gueto só”.
A produção também não explora a carreira de modelo: aos 17, ela posou para Seventeen, Glamour e Cosmopolitan, abrindo portas para mulheres negras na moda anos antes de ser “descoberta” por Clive Davis em 1983.
Outro vazio: sua produção cinematográfica. Whitney fundou a BrownHouse Productions em 1996 com Debra Martin Chase, produzindo A Proposta (1997, com Brandy Norwood, visto por 60 milhões) e O Diário da Princesa (2001, US$ 165 milhões em bilheteria). Esses sucessos a tornaram uma das primeiras mulheres negras a comandar blockbusters, mas o filme os resume a menções passageiras.
A vida pessoal de Whitney Houston narrada pelo filme
Aqui, o filme se destaca ao humanizar Whitney, mostrando seu romance com Robyn Crawford – confirmado no livro de memórias de Robyn, A Song for You (2019), como uma relação lésbica intensa nos anos 1980, terminada pela pressão da gravadora. Mas omite a profundidade: Robyn não era só amante; era confidente e diretora criativa até 2000, quando Whitney a demitiu em meio ao caos com Bobby Brown.
O filme suaviza o casamento com Brown (1992-2007), mostrando brigas e infidelidades, mas não as denúncias reais de violência doméstica – em 2003, Bobby foi acusado de agredir Whitney, deixando marcas visíveis. Seu reality Being Bobby Brown (2005) expôs o vício do casal em crack e cocaína, mas Whitney recusou uma segunda temporada para proteger a imagem.
Faltam, também, os laços familiares mais sombrios. Sua mãe, Cissy Houston, uma das vozes do gospel que foi backing-vocal de Elvis, foi rígida: Whitney cantava no coral da New Hope Baptist Church aos 5 anos, mas cresceu sob pressão para ser “perfeita”.
O pai, John Houston, gerenciava sua carreira, mas foi acusado de má gestão financeira – em 2002, processou a filha por US$ 100 milhões em royalties não pagos, morrendo em 2003 sem reconciliação. E a infância? O filme pula os rumores de abuso sexual na família e a infidelidade da mãe, revelados no documentário Whitney (2018) por Kevin Macdonald. Whitney sofreu traumas que ecoaram em sua bissexualidade reprimida e inseguranças sexuais, influenciadas pela educação batista conservadora.
Quanto à filha, Bobbi Kristina (1993-2015), o filme a mostra como criança, mas não sua trágica morte: aos 22, ela foi encontrada inconsciente na banheira – ecoando a de Whitney – e morreu em coma após overdose de drogas e álcool, herdando os demônios da mãe.
“I Wanna Dance With Somebody”, o filme, toca no vício em drogas, mas de forma sutil – cenas de cocaína no final, sem o horror real. Whitney começou com maconha na adolescência, influenciada pelo irmão Michael, mas o as drogas mais pesadas, e suas combinações, vieram na época de “O Guarda-Costas”.
Em 2002, na entrevista com Diane Sawyer, Whitney negou usar crack (“é whack”), mas admitiu cocaína e marijuana em 2009 para Oprah: “Eu fumava com Bobby porque ele fumava”.
Internações em rehab (2005, 2011) não bastaram; diagnosticada com enfisema em 2011, perdeu muita potência na voz aos 42 anos devido ao abuso. O filme ignora incidentes como a prisão por posse de maconha em 2000 no Havaí (encerrada após avaliação) e a briga em 1991 com o irmão, acusados de assalto após racismo em um show.
Sua filantropia, também, é subestimada: a artista fundou a Whitney Houston Foundation for Children em 1989, doando milhões para AIDS, educação e crianças carentes. Doou US$ 250 mil ao United Negro College Fund em 1988 e US$ 30 mil em um show para AIDS em Boston (1986).
Whitney foi ativista anti-apartheid, performando para Nelson Mandela em 1994, e contra estigma LGBTQ+ em vigílias de 1991.

Sua morte, em 11 de fevereiro de 2012, aos 48 anos, no Beverly Hilton (encontrada na banheira, afogamento acidental por cocaína e doença cardíaca), é o clímax do filme – mas omite o contexto: pré-Grammys, após uma vida de excessos.
Seu funeral, com Stevie Wonder e Alicia Keys, teve 2 mil convidados; Bobbi Kristina, aos 18, cantou “I’m Every Woman”. Postumamente, Whitney rendeu US$ 30 milhões em 2023 (Forbes), com álbuns reentrando nas paradas e um dueto com Calum Scott em 2025.
Assistir “I Wanna Dance With Somebody” na Tela Quente é reviver o êxtase de Whitney – a garota de Nova Jersey que conquistou o mundo. Mas a história real é mais rica em nuances: uma mulher negra que derrubou barreiras raciais e de gênero, mas pagou com a alma por uma fama voraz.
O filme homenageia sua voz, mas não conta das cicatrizes que a moldaram – os abusos, as traições, o ativismo silenciado. Whitney não era só hits; era resiliência, dor e legado, todos embalados e canalizados na potência de sua voz icônica.