O que o filme ‘Elvis’ erra e acerta da história real para notar ao assistir

Filme do Elvis: filme da sessão Cinema Especial na Globo em 14 de janeiro de 2026

O filme “Elvis” (2022), dirigido por Baz Luhrmann e com Austin Butler no papel principal, é uma das biografias mais vibrantes e visualmente explosivas já feitas sobre uma estrela do rock.

Ele captura a essência eletrizante e a história real do fenômeno Elvis Presley, mas, como toda cinebiografia estilizada, mistura fidelidade histórica com liberdades artísticas para intensificar o drama, o espetáculo e a narrativa de exploração.

O resultado é um retrato que acerta em cheio no impacto cultural e na energia performática do Rei, mas erra (ou exagera) em vários pontos chave da trajetória real do artista.

Por aqui, a gente aproveita a exibição do filme nesta quarta-feira (14/1), no Cinema Especial da TV Globo às 22h20, para dissecar o que o filme acertou brilhantemente e onde desviou da realidade.

Onde assistir ao filme “Elvis” online

Onde o filme acerta na história de Elvis Presley

Austin Butler entrega uma performance impressionante na cinebiografia. Seus movimentos de quadril, a dicção, o timbre vocal (especialmente nos anos iniciais, cantando com a própria voz) e a transformação física capturam o magnetismo hipnótico de Elvis nos palcos.

O filme reproduz com precisão coreografias icônicas, como as do ’68 Comeback Special (NBC, 1968), incluindo o look de couro preto e a performance crua de “If I Can Dream”.

Luhrmann, autor de clássicos como “Moulin Rouge” e “O Grande Gatsby”, recriou meticulosamente figurinos (o macacão de jumpsuit, a camisa franjada da morte da mãe), cenários (Graceland, estúdios da Sun Records) e até detalhes como o pano de mesa manchado usado como contrato em Las Vegas.

A influência negra na formação musical de Elvis é mostrada de forma visceral e correta: o garoto pobre de Tupelo crescendo ao som de gospel em tendas revival, blues nos bares de Beale Street e artistas como Arthur Crudup (“That’s All Right”), Sister Rosetta Tharpe e B.B. King.

Elvis realmente absorveu tudo isso e ajudou a popularizar ritmos negros para um público branco mainstream, num contexto de segregação racial.

O filme acerta ao mostrar como o rock ‘n’ roll nasceu dessa fusão explosiva, e como isso gerou controvérsia e acusações de apropriação cultural na época.

O relacionamento tóxico com o Colonel Tom Parker (Tom Hanks) é fiel no essencial: Parker era um imigrante ilegal holandês (nascido Andreas van Kuijk) que se apresentava como “coronel” honorário, um vigarista de circo obcecado por dinheiro, que isolou Elvis artisticamente, priorizou lucros fáceis (filmes ruins, shows em Vegas) e levou 50% (ou mais) dos ganhos.

Parker realmente evitou turnês internacionais alegando “problemas de segurança” (na verdade, por medo de ser deportado). Ele manipulou Elvis para assinar contratos desfavoráveis e contribuiu para o ciclo de exaustão que levou à dependência química.

Momentos pontuais da história de Elvis são precisos: a morte precoce do irmão gêmeo Jesse Garon (que marcou Elvis profundamente), a devoção à mãe Gladys (e o luto devastador em 1958), o recrutamento para o Exército (que ajudou a “limpar” sua imagem após polêmicas sexuais), o casamento com Priscilla (conhecida aos 14 anos na Alemanha), a residência em Las Vegas a partir de 1969 e o declínio físico nos anos 1970, culminando na performance emocionante de “Unchained Melody” (1977, Rapid City), onde o filme corta para imagens reais de Elvis, um dos momentos mais impactantes e fiéis.

Priscilla Presley, Lisa Marie Presley e Riley Keough elogiaram o filme publicamente, destacando que ele capturou o “espírito” e a energia de Elvis, mesmo com liberdades.

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Onde a história do filme tomou liberdades criativas

O maior equívoco é a caricatura de Parker como um vilão unidimensional, quase cartoon.

Ele é mostrado como um manipulador maquiavélico que “descobre” Elvis num circo, o leva a um carrossel de espelhos e o convence num parque de diversões.

Na realidade, Parker só assumiu o gerenciamento em 1956, após Elvis já ter gravado “That’s All Right” (1954) e estourado no Louisiana Hayride. Parker não era um “palhaço de circo” assistindo ao primeiro show; ele era um promotor experiente que viu potencial comercial.

O filme exagera o controle de Parker sobre a imagem de Elvis nos anos 1950: a cena do concerto em Memphis (Russwood Park, 1956) com “rebelião” total, dedos mindinhos balançando e tumulto é uma colagem de vários shows (incluindo Jacksonville). Não houve “motim” tão dramático ali.

Parker realmente pressionou para “domar” o sex appeal, mas Elvis resistia, e o filme condensa isso de forma hiperbólica.

A influência country e hillbilly na música de Elvis é relegada para enfatizar apenas o lado negro. Elvis cresceu ouvindo Hank Williams, Bill Monroe e rádio country tanto quanto blues; “That’s All Right” foi uma releitura blues, mas ele misturava tudo.

Interações com ícones negros (como B.B. King, Little Richard) são exageradas ou inventadas para cenas de “mentoria”. Elvis admirava esses artistas e frequentava Beale Street, mas não era exatamente o “amigo inseparável” mostrado.

O ator que interpretou Elvis Presley no filme de Baz Luhrman: Austin Butler

O ’68 Comeback Special é romantizado: Parker queria um especial de Natal piegas (com músicas natalinas e suéter), mas o diretor Steve Binder e Elvis insistiram no formato cru e rebelde. O filme acerta o conflito, mas dramatiza demais a “vitória” de Elvis contra Parker.

A relação com Priscilla é suavizada e romantizada: o filme minimiza a diferença de idade (ela tinha 14 quando se conheceram) e o controle possessivo de Elvis. O divórcio (1973) é tratado de forma emotiva, mas Priscilla teve papel menor nos anos finais do que o filme sugere, de acordo com relatos.

O filme ignora ou minimiza aspectos como: o vício em drogas (mostrado, mas não aprofundado), encontros com Nixon (1970), filmes dos anos 1960 (condensados em montagem camp), o peso da fama e a saúde mental. Termina antes da morte (1977), focando no drama de “prisão” em Vegas.

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“Elvis” não é um documentário, é um musical-pop-operístico febril, no melhor estilo Luhrmann.

Acerta na alma: a explosão sexual e racial do rock ‘n’ roll, o carisma inigualável de Presley, a tragédia de um talento preso por ganância. Butler e a produção visual são impecáveis.

Mas erra ao simplificar Parker como monstro absoluto, ao exagerar certas cenas para efeito dramático e ao omitir nuances (como as influências country e o lado mais complexo do relacionamento com Priscilla).

No fim, o filme revive o mito do Rei com paixão contagiante, e isso, para muitos, vale mais que uma precisão cirúrgica.

Como disse Priscilla: “É a história verdadeira contada de forma brilhante e criativa”. É Elvis, mas é também Baz Luhrmann: exagerado, hipnótico e inesquecível.

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