A nova capa da Kim Kardashian é boa. Por cinco motivos principais:
1. É fotografada pelo Jean-Paul Goude. Faz tempo que ele não clicava pra revista.
2. É bem-humorada. Por mais que você tente dar vida à Kim Kardashian assistindo ao seu reality show, é difícil fugir da imagem de carão sisudo pra foto a todo momento. A. Todo. Momento.
3. É pra coroar o ótimo ano que ela teve. Capa da Vogue US, casamento-evento, as amizades com a turma da moda, closet mais grifado do que nunca (dela e da filha), as selfies. 2014 foi decisivo para a sua persona fashionista (às custas de muito investimento).
4. É totalmente relacionada com a parte do corpo mais celebrada pelo pop americano neste ano.
5. É uma foto nítida de seu bem mais famoso. E que bunda.
Eu sou paulistano, mas não muito. Nasci em São Paulo, mas vivi mesmo no litoral, cresci de verdade no interior e só depois de grande é que fui pra cidadona. Descobri a moda ainda na faculdade (de cinema) e antes de saber de fato quem é Miuccia e quem é Ghesquière fui seduzido mesmo por roupa de muderno que saía à noite, quebrava o copo do drink e voltava pra casa com a roupa rasgada. Cena que eu acompanhava à distância nos muitos e muitos cliques de fotolog. Não foi à toa que minha primeira saída na cidade foi um show do Cansei de Ser Sexy (antes de ser CSS); quem convivia comigo sabe, até hoje, a letra de Meeting Paris Hilton. No mínimo, o refrão. Antes de comprar Margiela, eu comprei Amonstro (e pela internet). O excesso de “eu, eu, eu” não é pra pagar de cool como eram as pessoas que eu acompanhava (e que, confesso, queria imitar). É só pra deixar o plano de fundo sólido pra minha penca de adjetivo bom que vou soltar já já para o desfile da Amapô.
Pra comemorar os dez anos da marca, Carô Gold e Pitty Taliani fizeram o que chamaram de autohomenagem, remixando peças e ideias que já passaram pelo Amni Hotspot, pelo SPFW e ganharam as ruas nos endereços onde turma da qual você quer fazer parte vai. O protagonista da história é o jeanswear. Basta um passeio pela página do Facebook da Amapô pra ver a demanda e as broncas de quem não entende que fazer mais das desejadas calças skinny de cintura alta não depende só de boa vontade. Ainda que sejam elas o carro-chefe, a passarela da marca sempre teve mais: mais ideias, mais referências brasileiras, mais peças impossíveis (pra quem é chato), mais acessórios, mais imagem de moda jovem, boa e de tanto bom-humor quanto a dupla que a comanda ou seus convidados que assistem desfile fazendo dancinha (lembra quando desfile era divertido?). É preciso alta dose de energia pra fazer uma marca como esta vingar; toda ajuda é bem-vinda. A dupla já foi bem direta sobre as dificuldades que os negócios enfrentam em uma entrevista obrigatória pra quem quer entender parte dos problemas que marcas recentes enfrentam aqui no Brasil (leia aqui).
Com tanto contra, ver o guarda-roupa para elas e eles desfilado desta vez só aumenta a torcida para que venham mais dez, vinte, trinta anos de Amapô pela frente. Não é nem só pra mandar good vibe, é quase um pedido egoísta deste que escreve. É difícil resistir à vontade de (re)ativar o lado mais rebelde do cérebro com o mesmo vigor que as meninas desafiam as regras de modelagem e de estilo. A moda brasileira precisa amadurecer pra dar conta deste tipo de talento, mas não precisa ser pelo caminho sem emoção, de roupas internacionalmente elegantes. Desfilar com o primeiro vestido estampado de ombros de fora cheio de correntes com medalhinhas mais botinha de onça, com o vestido animal de moletom, com o colete perfecto folgadão, com o macacão listrado na costura ou com as pochetes de franjas compridas e os óculos (em nova parceria com a Chilli Beans) não é só um jeito que tentar conquistar o nível de credibilidade fashion dali (será que eu já passei da hora de dar conta?). É um jeito de acordar o nosso lado menos careta, que já se jogou (ou que quer se jogar) no tipo de liberdade criativa que Carô e Pitty levam para a passarela. Desfile usado como despertador. O casaco de lã normcore-japonista-tipo-Céline-com-amarração pode ficar pra hora de voltar pro escritório. O que eu queria mesmo agora é fazer parte dessa festa. Se fosse com dez anos a menos, melhor ainda.
Reunidas aqui estão vinte entradas de Thairine Garcia nas passarelas do SPFW inverno 2015 e suas facetas para cada marca. Da elegância cool da Animale à viagem à Islândia da 2nd Floor, passando por sua versão mulherão na Versace pra Riachuelo, pelo look muito-muito cool da Lilly Sarti (minha entrada favorita!) e pela diversão do look à la Star Wars na Triton.
A lista completa da segunda temporada de Thairine na semana de moda, pra ajudar a identificar qual é qual (da esquerda para a direita!): Animale, Tufi Duek, PatBo, Pedro Lourenço, Reinaldo Lourenço, Lolitta, Giuliana Romanno, Colcci, Ellus, Lilly Sarti, Vitorino Campos, Sacada, Triton, Iódice, Glória Coelho, Gig, Osklen, Versace para Riachuelo, Têca e 2nd Floor. Vale clicar na imagem para ampliar.
Falar em roupa de verdade numa semana de moda pode ter significados diferentes. Podem ser as peças da supermarca que saem da passarela pras lojas. Vale pra diferenciar quem mostra ideia e quem mostra algo pra vestir. Dá até pra virar um guarda-chuva que cubra quem se mostra alinhado com o normcore (que significa tanto e não significa nada).
Aqui, a “roupa de verdade” é pra tocar uma conversa específica sobre os primeiros dias de desfiles de inverno 2015 do São Paulo Fashion Week: roupa que ganha versão deslumbrada na passarela, mas segue para as araras e para os armários de quem veste suas criadoras. Detalho mais: é difícil engolir, falar sobre, ler coberturas e, pra quem trabalha diretamente nos parques durante o calendário fashion, enfrentar espera, correria e posicionar o melhor ângulo do iPhone (tem que fazer insta!) com marcas que não transformam o que apresentam em produto. Não sou só eu que implico com isso há tempos; os nomes mais recentes que entraram no line-up denunciam a vontade valorizar quem faz isso bem.
Uma marca que usa a estrutura como ferramenta de posicionamento, tipo mostra-tudo-e-vende-nada, tem o seu valor. Injeta dinheiro e traz atenção para o evento com o que consegue comprar (case Gisele Bündchen, por exemplo). Há também espaço para a criação sem roupa, mas talvez esta precise ganhar destaque em outro lugar (na galeria de arte?). Esses dois casos (tem outros) são complementares, mas não suficientes para fazer com que a semana de moda ajude a alavancar os negócios de suas participantes. Falta roupa que transforme o desejo da passarela em dinheiro. Alinhavar criação e comércio faz, de fato, as marcas andarem para frente e desenvolverem tanto a fachada quanto a fundação (além de dar animação extra em quem cobre moda).
A nova versão da Animale, agora com Vitorino Campos no time
A repaginada da Animale nas mãos de Vitorino Campos foi pontapé inicial dos melhores pra temporada. As mulheronas de antes, que entravam na passarela com looks impossíveis, distanciados das (muitas) consumidoras, começavam a desgastar a fórmula. O update veio em boa hora e os blazers e calças amolecidos, os casacões e as entradas de seda (como o vestido-nada, impensável na Animale de antes) são ótimos exemplos para encurtar a distância entre show e loja. Fizeram também muita jornalista (que só veste fast fashion e marca gringa) agradecer a chance de conseguir um guarda-roupa luxuoso e atual (sem fashionismo exagerado, na ressaca do normcore) feito no Brasil.
Não foi sorte de desfile principiante: Victor Dzenk mostrou seu lado casual com apropriação do universo equestre (da Hermès), Patricia Bonaldi adaptou a riqueza da linha homônima para a estreia da PatBo e a Cavalera usou o conto de “João e Maria” pra sofisticar o streetwear de olho nos anos 70 da vez. Continuou no dia seguinte com as segundas vezes de Giuliana Romano e da Lolitta no SPFW. Abro um parênteses: dois dos melhores desfiles do verão anterior. Giuliana é craque e um dos ótimos cases das marcas mais recentes. No evento, mostrou que a marca tem brilho na passarela além de vender e ser (muito) usada pela turma que lhe é fiel (nenhuma novidade estes dois últimos). De olho em um universo sombrio, mostrou vestido inspirado em smoking pra não ser careta em festa, caprichou na fenda alta e fez a versão mais legal da seda (ela de novo), aqui em detalhes com textura de pele.
Já Lolita (a estilista é com um ‘t’) soltou a mão nos vestidos que não parecem, mas continuam sendo de tricô e abriu o leque de ofertas. Teve chamariz de cliques: os “piercings de roupa”, aplicações de metais ao longo dos vestidos (sempre) colados em referência à riqueza das joias do antigo Egito. A imagem foi menos forte que a anterior, mas ficam poucas dúvidas de que neo-Cleópatras clientes da etiqueta vão levar os looks para os cliques de #OOTD do Instagram. Pop-up para destacar os acessórios da designer Mariah Rovery que finalizavam os looks. E mais: Pedro Lourenço desfila e já leva peças pra pop-up no Iguatemi. Um dos highlights do desfile do Reinaldo Lourenço era a estampa toda pontilhada (linda!), alternativa às aplicações-encarecedoras. Tem muita dica rolando por aí.
Passando a régua, a melhor peça para ilustrar a conversa de passarela nas araras destes primeiros dias de SPFW é a camisa. Está lá no rol da “moda-escritório”, ganha a rua aos montes, é popular tanto em suas versões de R$ 6o como nas de R$ 3 mil+. Agora, ganha cara de “item da vez” nas versões polidas da Animale e de Romanno (lembra também do início da temporada internacional do próximo verão?). Tem versão fantasia pra criar fascínio fashion (como o look Inception criado por Vitorino, de camisa com camisa), mas dá certo também na hora em que vira produto (que pode ganhar, inclusive, etiqueta de preço variada). Vai que ajuda a encher o caixa.
Veste a camisa: da Giuliana Romanno (esquerda) e duas da Animale