Autor: TRAUM

  • Edição especial: Ralph Lauren Purple Label, inverno 2016

    Os ditos “neodândis” do street style poderiam investir em uma incursão pelo universo da Ralph Lauren. No palazzo da grife, endereço que recebe suas linhas na Via Barnaba, em Milão, a marca reuniu imprensa e convidados para apresentar as novidades da etiqueta Purple Label, signature collection que encarna de fato o lifestyle de seu fundador.

    Dividida em blocos por tons, o conjunto impressionava pelo olhar afiado de edição que dá aula sobre a diferença entre estilo e ostentação, lição importante para pensar o guarda-roupa masculino. Ternos grafite de três peças em cinza, um closet de elegância profissional, dividiam espaço com grupo todo em tons de marrom composto por produções de blazers descombinados sobre malhas gola V ou camisa e gravata de tons derivados. Calma para os olhos.

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    Outro bloco, todo em tons claros com tricôs mais grossos, jaquetas de camurça com trim de pele, franjas ou em couro de vaca injetavam desejo fashionista em volume maior. Lucky Blue Smith, o top da vez responsável pela turma enorme de adolescentes histéricas na porta, vestia o look mais high-profile do grupo ao redor: um casaco de pele por cima de suéter de gola alta, calça branca e botas de camurça. Em um dos salões adjacentes do palazzo, seis looks todos em cinza davam o tom da coleção pre-fall apresentada ao lado da nova linha de acessórios de ski.

    Oferta para todas as horas, sob uma única etiqueta e embaixo do mesmo (impressionante) teto do endereço. Não é a toa que convidados tão refinados quanto os novos looks se deliciavam com as novidades expostas: já não basta oferecer produtos de qualidade, com informação de moda ou com diferencial criativo. Moda hoje se vende pela experiência completa, mesmo que esta dure o intervalo de duas horas da apresentação.

    A moda masculina de festa era representada por três homens de preto. São looks que, nos próximos meses, ganharão tapetes vermelhos com nomes da agenda de contatos da marca em Hollywood. Poucos apostariam, sem medo, no jaquetão de smoking de estampa floral combinado com calça preta e mocassins com as iniciais de Ralph Lauren. Ainda bem. Navegar pelos limites traiçoeiros da elegância masculina, como a grife faz tão bem, não é tarefa fácil para qualquer um.

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  • Refugiados ganham a passarela em desfile inclusivo de marcas africanas

    O casting do desfile cujo registro você vê acima conta com uma novidade difícil de identificar prontamente. Inclui modelos do tipo “homens reais” parte do contingente de refugiados vindos de países da África que buscam asilo na Itália. A ação foi fruto da parceria entre a IHT Ethical Fashion Initiative, joint agency das Nações Unidas com a Organização Mundial do Comércio, e a Lai-momo, cooperativa italiana que visa a integração social e profissional de imigrantes de países do continente africano, do Caribe e de países da costa do Pacífico. Foi apresentada em um galpão industrial na apresentação do projeto Generation Africa em Florença, nos arredores da feira Pitti Uomo, no último 14.01.

    Os modelos estreantes do show não foram identificados isoladamente. Tornaram-se assim parte legítima da equipe envolvida no desfile. Parece pouco, mas a iniciativa coloca a moda como agente ativo frente a realidade que a cerca. Firma um exemplo de miscigenação orgânica de fato, e não apenas midiática, que abre o leque de possibilidades para a atuação do segmento pela causa.

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    O desfile recebeu quatro designers da África do Sul e da Nigéria. O multiculturalismo africano tem história recente na moda marcada por denúncias de apropriação cultural, mas aqui o olhar era de dentro pra fora. Além de valorizarem o que define o estilo de seus países e recodificá-lo pela apropriação de códigos da moda global, as marcas selecionadas também estavam unidas pela atenção aos meios de produção de cadeia responsável e pela capacitação de mão-de-obra especializada nas regiões de origem.

    Cores, riquezas decorativista e prints gráficos, elementos associados repetidamente ao complexo continente africano, ganharam a passarela, mas sob o olhar esperto de designers conectados com o que pede a nova moda masculina. Alfaiataria relaxada, inspiração nos uniformes militares, streetwear amplo com estampas caleidoscópicas e aplicações focadas de peles e bordados foram apostas em comum vistas tanto no desfile do projeto quanto nas araras de marcas consolidadas da feira de moda masculina adjacente. Desta edição, a segunda da empreitada, participaram as marcas AKJP, Ikiré Jones, a parceria entre os designers Lukhanyo Mdingi x Nicholas Coutts e U.Mi-1. O desfile completo de cada uma delas você encontra na galeria logo abaixo.

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    AKJP

    Publicado por Traum em Sábado, 16 de janeiro de 2016

  • Pitti Uomo 89: o maior gentlemen’s club do mundo prepara o terreno para novas gerações

    Duas vezes por ano, o Fortezza da Basso recebe a maior feira de moda masculina do mundo: a Pitti Uomo, realizada pela rede de feiras Pitti Imagine. Entre 12 e 15/01, o evento ganhou sua edição #89 disposta pelo espaço enorme da locação, um labirinto repleto de grifes italianas e internacionais (o ratio é quase de 50%) com araras e mais araras de lançamentos para o inverno 2016 internacional, que desembarcam nas lojas a partir de setembro.

    Vale tudo: etiquetas renomadas de alfaiataria italiana e britânica, um sem-fim de marcas focadas em acessórios, dos tradicionais artigos de couro aos itens casuais e esportivos, labels de cases de smartphone, barracas de óculos, pop-up de décor, estandes tipo flagship store e corredores dedicados a talentos recentes. Focada nos negócios, mais de 30 mil credenciados (compradores, imprensa e convidados) fazem rondas e fecham pedidos entre um espresso (mais um cigarro) e outro. Perder-se entre os caminhos sinuosos do forte é fácil, mas nenhum tour, ainda que desorientado, sai imune às informações extra de estilo masculino dispostas pelos corners.
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    A ação é outra na praça central, neste ano decorada com portraits em preto e branco de homens de diferentes gerações (tema da edição). É notável o interesse das publicações e seguidores do assunto pelo estilo de rua (#streetstyle), por mais desconectado da realidade que grande parte do registro pareça a cada temporada. A Pitti é um paraíso para fotógrafos atrás do “estilo exuberante italiano”. Convidados de olho na fama de alguns tantos cliques comparecem em peso. São apelidados carinhosamente de homens-pavão e exibem desde produções ricas em tons de uma cartela impensável para os clientes luxuosos das transações da feira (roxos, amarelos, verdes e azuis de alta intensidade dos visitantes encontravam poucos correspondentes nas grifes expositoras). Também navegam por referências de uma época na qual não se vive mais, tomados por uma elegância saudosista que empolga caçadores de qualquer clique.

    Numa primeira visita pela feira, e no estágio atual de saturação deste formato de registro que vende personagens ficcionais para uma indústria sedenta por imagens a todo momento, o fenômeno impressiona, para o bem e para o mal. Parece implicância, mas o assunto estendeu-se em publicações focadas no público masculino. “São estes os looks mais irritantes da Itália?” perguntou a GQ norte-americana, enquanto Guy Trebay, do NY Times, ou qualquer legenda do instagram da Esquire estenderam a discussão. A última, dona de uma cabine fotográfica em uma das esquinas da praça principal, optou por produções de elegância comedida apelidada de #TheNewStyle, de imagem mais crível aos seus leitores, para os registros. Note também os cliques de Scott Schuman, do The Sartorialist, e leve as observações acima em consideração para entender porque, numa feira de moda masculina, ele retratou três nomes femininos.

    Se a exuberância exagerada ficava para o lado de fora da feira, o que há lá dentro? As possibilidades do guarda-roupa masculino, como se vê nas passarelas das outras cidades da temporada de moda, são infinitas. Deixaram há tempo, ainda bem, o range tão delimitado do que aparece nas “ruas reais”. A missão de valorizar qualidade, história, tradição e estilo à prova de tendência cabe à Pitti, ainda que esta se mostre conectada com novos caminhos do segmento. Quão emocionante pode ser um passeio por uma sequência sem fim de casacos de lã cinza, sobretudos pesadíssimos para o inverno europeu (apesar do frio fazê-los parecer ainda mais especiais) ou suéteres de cashmere se não há, de fato, algo a ser celebrado ali?

    Microtendências podem ser enumeradas rapidamente por quem procura informação digerida, ainda que estas pareçam recorrentes — já são, na verdade, clássicos: jaquetas influenciadas por uniformes militares, o reinado dos cappottos de impacto, calças mais amplas, jaquetas perfecto em mil variedades de couro, brogues de couro com solado grosso de borracha para aventureiros, óculos de armações coloridas e inusitadas e camisas renovadas por grafismos que adicionam beleza interior ao exterior classudo. Tome, mais uma vez, o olhar de Scott Schuman como referência (como um nome americano de Indiana navega tão bem pela sprezzatura italiana?) e preste atenção nos básicos criados pelo fotógrafo em parceria com a Roy Roger’s, marca de 72 anos de idade, renomada por seu jeanswear premium: um blazer cinza de dois botões mais bolsos e lapelas amplas, uma jaqueta de camurça marrom, calça jeans de denim bruto, cintura alta e modelagem ampla e uma parka usada sobre malha de gola rulê. Funcionam como um lembrete de que um guarda-roupa masculino clássico, de estilo consistente, se constrói pouco a pouco, sem o fervor acelerado de tendências.

    A Pitti Uomo se movimenta a mano a mano, principalmente no trato entre vendedores e clientes. Buyers estão atrás de apostas certeiras para abastecer araras e caixas de loja. Grifes, por outro lado, investem para reforçar as qualidades que sustentam a base de seus nomes, reverberadas entre cafés, risadas e cumprimentos a cada estande. Dá para compreender porque, para um olhar novato, a área da feira que fecha planilhas de compra pareça mesmo um grande gentlemen’s club.

    O feirão de negócios não precisa, obrigatoriamente, de arrojo criativo para garantir seus números, mas reúne iniciativas notáveis a fim de mostrar que está a par dos desafios contemporâneos de seu mercado. Recebe, a cada edição, um estilista internacional convidado, de preferência de carreira mais breve, para desfile-panorama de sua carreira; Junn.J, nome coreano com nove anos de marca, foi o da vez. O evento é palco também para ações que aproveitam a plataforma estabelecida em Florença: um desfile-instalação apresentou nova parceria da Adidas enquanto a rua que concentra as lojas grifadas da cidade recebeu a nova linha Superga X Del Toro. O renomado prêmio oferecido pela tecelagem The Woolmark Company (que já teve Yves Saint Laurent e Karl Lagerfeld entre os vencedores) cobre a demanda pelo lançamento de novos talentos. Inovação por associação é ferramenta quente de branding também: a automobilística Mini promoveu, nesta edição, um espaço com seis nomes novatos, uma miniseara de moda mais animada como as jaquetas que misturam matéria-prima tradicional com o toque esportivo do neoprene e patches de inspiração artística da Na Di Studio.

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    Já que a Itália é vista como um polo mundial de moda masculina, há também espaço na Pitti para refletir sobre seus processos. A IHT Ethical Fashion Innitiative, uma joint agency das Nações Unidas com a Organização do Comércio Mundial, usa pela segunda vez a feira como plataforma de visibilidade para o projeto Generation Africa. Com desfile coletivo apresentado numa área industrial vizinha ao Fortezza da Basso, revelou quatro marcas da África do Sul e da Nigéria unidas pela produção responsável, pela capacitação profissional de mão-de-obra em seus países de origem e pelo olhar nativo sobre a riqueza cultural tão diversificada dos países que representam. No casting, nomes recrutados pela aliança com a Lai-momo, associação italiana que visa a integração da população de refugiados, ganharam a passarela sem distinção entre os modelos, ilustrando a miscigenação orgânica proposta pela ação.

    “Nosso desejo é criar de fato um pólo de intercâmbio que dê a devida atenção aos talentos de uma população com incrível potencial criativo. Olhe para estas marcas. Você está presenciando os primeiros passos a caminho de um novo futuro para a moda!”, enfatizou Simone Cipriani, chefe fundador do Ethical Fashion Initiative. Com a moda italiana reconhecida pela tradição histórica movimentando um volume crescente de negócios em seu cuore, a Pitti completa o círculo de seus mecanismos de ação e aponta, com mira certeira, para os rumos que ajudarão a definir o seu futuro.

  • À moda da cidade: na semana de Londres, uma aula sobre diversidade na passarela

    Em uma primeira viagem a Londres, a diversidade de culturas unidas nos espaços da cidade impressiona. Em quatro dias, confesso, devo ter lidado com mais pessoas de background cultural de outras nacionalidades do que com ingleses “legítimos”, por mais problemática que soe este tipo de delimitação. Se a cidade é movida por forças de origens distintas e a semana masculina de moda se esforça para valorizar o que há de notável em sua indústria local, o raciocínio não poderia ser outro: a miscigenação nas passarelas londrinas é, de longe, a mais eficiente do roteiro das capitais de moda internacionais.

    Enquanto marcas de outras cidades se esforçam para quebrar a hegemonia do(a) modelo branco(a), as do circuito londrino estão um passo adiante. Não incluem dois modelos negros em tom de obrigatoriedade. Vasculham tipos diferentes através do recrutamento de “homens reais” e de agências além das renomadas, reforçam suas características mais marcantes (ao invés de tentar homogenizá-las) e, talvez o mais importante, assimilam o mix de bagagens culturais distintas em seus trabalhos. #miscigenaçãocomtesão

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    O trabalho de colher detalhes sobre coleções que fazem questão de explicitar cada uma de suas referências vira um exercício de abertura de olhar. De pesquisa no Google também (risos), dada a área tão delimitada na qual nos situamos pelo vício em receber informações sempre das mesmas fontes.

    Como exemplo, pela (enxuta) agenda de grifes paralelas da TRAUM passaram uniformes das novas tribos urbanas (Maharishi), streetwear conectado às turmas dos latinos da Nova York dos anos 70 (Baartmans and Siegel), interpretação bem-humorada, e inclusiva, do cotidiano brasileiro sob olhar gringo (Bobby Abley). Fomos do caldeirão da cultura pop global (Moschino) ao remix dos trajes dos cultivadores de arroz na China (Chen Peng), todos representados por modelos tão distintos quanto suas referências.

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    Mais do que só variedade de inspiração, estes trabalhos ressoam de forma significativa por estarem situados em uma semana de moda aberta ao público ao seu redor, tanto no nível das ideias e da representatividade quanto fisicamente. A grande maioria dos desfiles da temporada masculina de Londres conta com entrada para standing, fila da turma sem-convite que assiste às apresentações em pé, e recebe atenção tanto da mídia principal quanto da rede da “nova imprensa de moda”, bloggers e fotógrafos de estilo, presentes em peso (e bem recebidos) por todas as atividades do calendário oficial.

    Com o trabalho focado do British Council of Fashion e a esperteza de seus criadores, Londres não pode mais ser reconhecida apenas pela tradição histórica de sua alfaiataria ou pela inovação em sua vertente mais jovem e animada. Atenta à inclusão do universo vasto dos consumidores das imagens (e produtos) que saem de suas passarelas, a capital britânica já está pronta para exportar também um formato de apresentação de coleções que começa a dar conta dos novos tempos. Só falta quem o compre.

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  • As iluminadas: close na beleza do Globo de Ouro 2016

    Neste ano, a emoção do Globo de Ouro 2016 não ficou, claro, limitada ao tapete vermelho: nome brasileiro estrelado na concorrência, o primeiro prêmio pré-Oscar para Leonardo DiCaprio, a dupla Ryan Gosling + Brad Pitt no palco… Antes que a ação começasse, porém, a beleza sofisticada e high-glamour das estrelas que cruzaram o red carpet iluminou a noite que deu pontapé inicial à temporada de premiações do ano.

    Ao invés de optar por estilos pesados, o destaque foi para quem cruzou o tapete com aparência polida e fresh, contraponto essencial aos rostos que mostram quão sobrecarregados de produtos realmente estão. Moderna, de aparência quase natural, acompanhada por um bob bem feito ou desfeito, a make suave com pontos de brilho foi bem mais gostosa de acompanhar do que, por exemplo, complicados e escuros olhos esfumados dos anos anteriores (que quase nunca saem bem em foto!).

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    Pense, por exemplo, em Rosie Huntington-Whiteley com rosto clean e ondas de verão nos cabelos ou na maquiagem de Jennifer Lawrence, ambas superiluminadas. Nos cabelos, destaque para o bob de Lily James, os fios ao natural de Amy Adams e o elegante rabo de cavalo baixo de Malin Akerman. É como se a dica fosse: se você está procurando alguma beleza cool, aplique um iluminador, um lip balm, um curvex e pode sair de casa!

    De Rosie vem a inspiração mais “leve para a vida real”: leve delineado apenas na parte superior, lábios nude e sombra iluminada ouro. Você pode imitar usando o Soft and Gentle ou o Pearl/Hush, ambos MAC, ou Shade & Illuminate da Tom Ford — dois #makeupessentials para o ano.

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  • That 70’s show: Baartmans and Siegel, inverno 2016 masculino

    Harlem, Studio 54… de Londres, a Baartmans and Siegel transportou convidados diretamente para a Nova York de 1976. Com apresentação na Victoria House, o casting misto de garotos e garotas encarnou personagens tanto da cena noturna de glamour aplicado quanto a juventude das ruas da capital sob o olhar tipo ostentação-relax da dupla Woulter e Amber.

    Alfaiataria soft em cartela cáqui e cinza garantiu alguns essenciais do guarda-roupa mais luxuoso; sobretudos, peça certeira de inverno que soa como aposta nesta temporada, ganharam golas de pele, combinando com os casacões felpudos jogados por cima dos costumes vestidos pelo casting feminino. Em outro bloco, uniforme de rua retrô com versão de fino trato das jaquetas esportivas de capuz de pele e moletom com logo para toda hora.

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    A visão dupla sobre a época se conecta bem com a procura por roupa adulta de estilo marcante, uma versão vida real dos homens-pavão que floreiam pelo “street style” das semanas de moda, e com o closet despojado para quem prefere atitude conectada com a cultura urbana. Pode ser as duas fatias do filão de clientes da marca, mas também reflete bem uam divisão importante dos consumidores masculinos. Bom à beça!

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    Baartmans and Siegel, inverno 2016 masculinoApresentado na London Collections, em 10.01.2016Leia mais: https://goo.gl/cwSSbb

    Publicado por Traum em Quarta, 13 de janeiro de 2016

  • Cottweiler, Nigel Cabourn e Alex Mullins: da loucurinha aos uniformes na LCMAW16

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    Foto: Guga Santos

    A rota de apresentações do primeiro dia da semana masculina de Londres foi boa para exemplificar a diversidade de seus seguidores e dos #tiposdehomens que fazem parte do imaginário das grifes. Básicos de luxo renovados por uma viagem intergaláctica, jeanswear revirado com aspirações artísticas e até roupas de verdade, baseadas no lifestyle de um legítimo ‘guy’s guy’. A sexta-feira (08.01) de moda virou um bom, ainda que breve, resumo do que se vê nas passarelas e nas ruas da cidade. Aos detalhes!

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    A marca é recente, fundada em 2012 pela dupla Ben Cottrell e Matthew Dainty, focada em roupas que conectem seus consumidores ao mundo que os cerca. A galeria PM/AM em Paddington recebeu convidados antes de mandá-los, mesmo, para uma viagem espacial com cenário soturno e trilha eletrônica pulsante. A ideia é de básicos renovados; jaquetas e calças em neoprene mais agasalhos esportivos, mas de fino trato, deram ares de uniforme aos conjuntos. O bloco que mais chamava atenção era o dos tecidos de acabamento high-tech, em versão prata ou translúcidos de acabamento metalizado.

    Em contraponto, malhas e calças de lã sintética (e impermeável) de textura rústica traziam os garotos de volta ao chão. Ramos de trigo decoravam o convite, o cenário, viraram acessórios e, um isolado, estampava o suéter assinatura vestido orgulhosamente pelos designers. Melhor coleção (vista) do dia.

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    Fotos: Guga Santos

    NIGEL CABOURN — Authentic, Lybro e The Army Gym

    Com mais de 40 anos de moda, Nigel comanda simultaneamente três etiquetas, todas reunidas para a apresentação no endereço da The Army Gym em Covent Garden. Aqui não existe forma sem função: as roupas criadas por Cabourn são totalmente conectadas com seu lifestyle esportivo, viajante e aventureiro.

    A linha principal, a Authentic Nigel Cabourn, conta com “roupa de verdade” em 25 peças ‘made in Great Britain’; várias são novos takes de itens-assinatura da trajetória da marca. Por exemplo: o colete Cameraman, uma versão incrível dos itens funcionais de fotógrafos e cinegrafistas, foi refeito em tweed desenvolvido especialmente por Nigel, de toque encerado, e revestimento em “laranja vintage”; a marca tem em seu rol de fornecedores fabricantes históricos de tecidos voltados à moda masculina. A oferta é de um guarda-roupa completo com camisas, jaquetas impermeáveis, calças de modelagem confortável e botas pesadas que cairiam no gosto dos homens (friorentos) brasileiros que fogem de fashionismos.

    Em outro corner, foco na Lybro, marca antiga de uniformes industriais comprada por Cabourn e agora em sua primeira coleção completa. Trajes usados por operários de indústrias, de ferrovias e de fábricas de munição viram macacões cáqui de toque suavizado, sobretudos pesados e camisas de linhas precisas, sem floreios, em denim grosso e resistente. No andar de baixo, mais novas de duas coleções: a The Army Gym, roupa fitness sem frescura e à prova do frio mais a linha de camisas polo e cardigãs para a Fred Perry, parceria lançada em 2015 que uniu a paixão dos envolvidos pelo tênis. Dica: a loja na 28 Henrietta St. merece ser incluída num bom roteiro de viagem a Londres.

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    Foto: Guga Santos

    Alex Mullins

    Na Victoria House, um dos QGs da semana masculina de Londres, o estilista formado na Central Saint Martins com dois anos de marca armou uma instalação artística para discorrer sobre o tédio. Em cases de painéis com splashes de tinta, tecidos e roupas tipo DIY emolduradas, um grupo de garotos segurava a não-pose frente aos cliques de quem chegava perto. Vestiam um jeanswear divertido, todo irregular e de barras desgastadas combinados com tops e coletes decorados com colagens de uma juventude blasé-i-don’t-care e camisetas com o logo por cima de manchas de tinta. Roupa tipo Tumblr. Já a turma de convidados, vários amigos fervidos, muitos de look Trainspotting, tinha vibe oposta, em clima de esquenta pra noite de sexta sob trilha animada e drinks.

    Roupa assim é boa mesmo de ver com contexto, ainda que as de Mullins tenham saída garantida em multimarcas modernosas tipo VFiles e a 10 Corso Como. Injeção de ânimo colorida e bem-humorada para não deixar a moda tão insossa quanto o casting em cena.

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    Foto: Guga Santos
  • Os desafios da nova masculinidade: London College of Fashion MA, inverno 2016

    O mercado de moda masculina não é coisa pequena. Movimenta em torno de R$ 2 trilhões/ano ao redor do mundo, em ritmo de crescimento maior do que a fatia dedicada às mulheres. No Reino Unido, é responsável por quase 800 mil empregos diretos e indiretos, além de estabelecer o díalogo entre a tradição em alfaiataria da Saville Row com os movimentos de base que sustentam o caráter inovador da moda local.

    Na ponta oposta da indústria, o que pensa a geração que promete se tornar seus próximos protagonistas? A passarela armada no Banking Hall em Londres nesta sexta-feira (08.01), primeiro dia da London Collections Men inverno 2016, tentou expressar algumas respostas. Por lá passaram trabalhos de dez mestrandos da London College of Fashion, braço de moda da University of the Arts London (seu ex-aluno mais famoso é o designer de sapatos Jimmy Choo).

    Nas entradas do desfile coletivo, a tradição histórica da moda britânica foi constantemente questionada; o mundo mudou, mas os códigos de vestir ainda não foram atualizados. Costumes ganharam frestas, versões desabadas, modelagem de painéis circulares evocando as linhas de Rei Kawakubo, tons vivos quase infantis ou modelagem skinny em conjuntos all black translúcidos tipo gótico suave. Camisas foram refeitas com franjas desenhadas a laser de acabamento desgastado pelo processo. Uma sequência de macacões xadrezes sob jaquetas matelassadas tamanho XXL levanta a dúvida se o único uniforme possível (ou eficaz) para o homem é mesmo o terno. Ninguém quer ser careta e sair de costume de lã azul marinho por aqui.

    O passado dá as caras em versão remix: trajes inspirados em uma corte disfuncional sofisticam as referências de streetwear; em Londres, a moda da rua sempre ganha versão máxi para injetar caráter novidadeiro à passarela. A referência é boa também para feminilizar os garotos. Babados, laços, roupas de baixo e rendas dão acabamento suis generis à turma, em diálogo pertinente com o assunto quente nas conversas de moda. Quem é que vai ser louco de validar a masculinidade em seu aspecto mais bruto hoje em dia?

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  • 7 questões que a moda insiste em não resolver

    7 questões que a moda insiste em não resolver

    Quem não sofre, não percebe. Quem é atento, nota. Quem acompanha, sabe de cabeça. Quem escreve, reclama. Quem sofre, denuncia. Quem produz, ignora. Existem problemas em torno da moda cuja discussão retorna de tempos em tempos, geralmente puxada pela polêmica da vez. São destrinchados em publicações engajadas, viram assunto de textões, transformam-se em hashtags de instadenúncia. Só não ganham soluções. Sugiro uma pequena lista, na sequência.

    Diversidade de pessoas

    A modelo alta, magra e branca só pode chegar a um determinado ponto. Insistir nos mesmos tipos em desfiles, campanhas, editorias e fotos no Instagram é desinteligente; exclui uma parcela considerável de consumidores que procura identificação com crivo amplificado pelas ferramentas ao seu dispor. Restringir tanto, hoje, funciona como um ótimo atestado de desconexão com o seu tempo.

    Responsabilidade humana e ambiental dos processos

    Existe novidade de fato que justifique o lançamento de uma iniciativa fashion que não seja atenta aos seus meios de produção? Se a moda tem tal poder em ditar padrões e regras de consumo e comportamento, que este seja o próximo trend alert do empreendedorismo. Vai que pega.

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    Apropriação cultural desrespeitosa

    A vigilância é cada vez mais potente, mas é necessário um update de firmware das “modas”. Sofre não quem desafia conceitos e usa fator de choque ao seu favor, mas quem ignora que o que funcionava há 10, 20 ou 30 anos precisa de revisão. Ao invés de ser refém, a moda poderia voltar a ser reflexo de seu tempo.

    Superficialidade

    Roupa não é só de grife, status não chega só via riqueza, sucesso não depende de look do dia. Valorizar insistentemente quem ostenta superficialidade emburrece público e agentes. E a inteligência fashionista?

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    Inovação precisa de visibilidade

    Empreender está em alta; novas abordagens pipocam em sites de financiamento, feiras de negócios, startups, laboratórios de experimentação e espaços de formação. Por outro lado, quem tem alcance insiste em repetir suas fórmulas restritivas. E se os canais abrissem o leque?

    Consumo, logo existo

    Separar a moda do consumo é tarefa delicada. “Arte aplicada”? Já distanciar a informação do impulso pelas compras é missão obrigatória. Não “tem que ter” um sistema sustentado pelo excesso de estímulos, nocivo aos recursos físicos, ambientais e psicológicos de quem vive ao seu favor. Personalidade não deriva de objeto, mas de pessoa.

    Em alta velocidade, mas em qual direção?

    Não dá tempo de ler porque a página atualizou para mais um view. Não dá tempo do verão porque o inverno já foi desfilado. Não dá tempo de apurar porque o outro já está publicando. Não dá tempo de olhar porque tem que fazer a foto. E a pressa pela próxima fase, cadê?

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  • Neith Nyer, verão 2016

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    Talentos recentes de visão precisa, que desafiam os limites engessados entre luxo e contemporaneidade, foram protagonistas da temporada parisiense de verão 2016. A lista é boa e conta, entre outros, com a estreia da dupla Sebastien Meyer e Arnauld Vaillant na Courrèges, o desfile-performance da Jacquemus ou o vigor underground da etiqueta Vetements (que levou seu fundador ao posto de diretor criativo da Balenciaga, mais um sinal do poder dessa geração mais fresca).

    O Brasil ganhou um representante à altura: Francisco Terra, estilista mineiro radicado em Paris, de onde comanda há dois anos a etiqueta Neith Nyer. No último dia da semana de moda, Francisco mostrou, pela primeira vez em formato de desfile, sua coleção mais recente (a divisão em temporadas é um dos fundamentos sob ameaça no trabalho da marca — #noseason). A apresentação armada no Palais Brongniart foi vigorosa com casting de garotas e garotos do tipo “quero ser amigo” e trabalho preciso que reconfigura códigos de um guarda-roupa refinado para quem quer luxo à sua maneira.

    Para a marca, uma camisola pode ganhar status de look de festa ou enriquecer a ideia de uma camiseta básica com barra de lingerie suntuosa. A alfaiataria é marcada por casacos relaxados com prints nebulosos, em risca de giz ou em versão uma-manga-só e pela camisaria moderna que se transforma em top cropped ou em vestido neoromântico. Nos looks deles, acabamentos do universo delas com estampas miúdas e tons delicados mais detalhes de faixas em renda. Um bom contraponto às garotas fortes de conjunto de jaqueta e bermuda de couro ou de vestidos fetichistas de crochê, estes assinados em colaboração com a expert Helen Rödel.

    Símbolos reconhecidos de rebeldia jovem complementam as entradas; repare nas franjinhas irregulares, nas meias-arrastão e nas telas por baixo de tantos looks ou nas botas pesadas do gaúcho Vinicius Dapper. A estreia de pisada firme e imagem potente na passarela é do melhor tipo, daquele que faz a gente querer ver muito mais deste trabalho. Boa nova para acompanhar com atenção!

    Na galeria abaixo, navegue por todos os looks do verão 2016 da Neith Nyer.

    Neith Nyer // Verão 2016 // ParisLeia sobre a coleção: https://goo.gl/18wbMS

    Publicado por Traum em Sábado, 24 de outubro de 2015

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