Publicado em: 11 de setembro de 2026
Para quem madruga em busca de uma obra cinematográfica instigante, reflexiva e carregada de fortes raízes na história política e social do Brasil, a programação da Rede Globo traz uma excelente pedida. O filme nacional Homem Onça é a atração do Corujão desta madrugada de sábado, 12 de setembro de 2026, indo ao ar por volta das 4h20.
Dirigido por Vinícius Reis e estrelado por um elenco de peso encabeçado por Chico Díaz, o longa transita com coragem entre o drama íntimo e a fábula política sobre a cruel era das privatizações nos anos 1990. Se você pegou o filme no meio, ficou curioso com os desdobramentos da trama ou quer entender a fundo o contexto por trás dessa produção aclamada, preparamos o guia mais completo da internet com a sinopse, o significado, o elenco completo e curiosidades dos bastidores.
A trama de Homem Onça transporta o espectador para o final da década de 1990, um período marcado por profundas transformações no cenário corporativo e estatal brasileiro. O protagonista é Pedro (vivido de forma visceral por Chico Díaz), um gerente dedicado que trabalha há anos em uma empresa estatal de mineração. Homem de confiança e de forte ética corporativa, ele se vê subitamente no centro de um furacão quando a empresa inicia um processo agressivo de reestruturação e privatização.
Enquanto o clima de incerteza toma conta dos corredores e a pressão aumenta para que ele próprio demita e enxugue a sua equipe, Pedro começa a ruir internamente. Sobrecarregado pelo estresse e pela culpa de ter que decidir o futuro de colegas de trabalho, o protagonista desenvolve uma grave e misteriosa doença de pele (psicossomática) que simboliza a corrosão de sua própria identidade.
Afastado do trabalho e fragilizado, Pedro decide abandonar a metrópole do Rio de Janeiro e retornar à sua cidade natal, Barbosa, localizada no interior. É lá que o filme ganha contornos de fábula: ao chegar, ele descobre que a lendária onça-pintada que outrora habitava a floresta local — considerada extinta ou uma mera lenda urbana — está mais viva do que nunca, transformando-se em uma poderosa metáfora para os instintos reprimidos, a liberdade selvagem e os traumas que tentamos soterrar.
Um dos fatos mais fascinantes e comoventes sobre Homem Onça é que a história não nasceu apenas da imaginação de um roteirista. O roteiro — assinado por Vinícius Reis em colaboração com Flávia Castro e Fellipe Barbosa — é profundamente inspirado na trajetória de vida do pai do próprio diretor.
O pai de Vinícius Reis era um gerente de carreira na Companhia Vale do Rio Doce e foi duramente forçado a se aposentar e a lidar com o vazio existencial durante o emblemático processo de privatização da estatal nos anos 90. Essa carga emocional íntima transborda para a tela, conferindo ao filme uma autenticidade dolorosa. O retrato da angústia de um homem cuja vida inteira foi dedicada a uma instituição que, da noite para o dia, o descarta em nome da eficiência de mercado, ecoa o drama de milhares de brasileiros daquela geração.
A força dramática de Homem Onça se sustenta em atuações primorosas de um elenco talentoso que transita com facilidade entre o teatro, o cinema e a televisão brasileira:
- Chico Díaz como Pedro: O protagonista entrega uma atuação magnética, traduzindo no olhar e na fisicalidade o esgotamento mental e a desestruturação de um homem comum engolido pelas mudanças históricas.
- Sílvia Buarque como Sônia: Acompanha as complexidades emocionais do núcleo familiar de Pedro.
- Emílio de Mello como Dantas: Traz a frieza e o pragmatismo corporativo da nova ordem empresarial.
- Bianca Byington como Lola: Atuação premiada que enriquece a dinâmica dramática do filme.
- Valentina Herszage como Rosa: Representa a juventude e os contrastes geracionais diante da crise.
- Tom Karabachian como Gustavo: Completa o núcleo jovem da trama familiar.
- Álamo Facó como Tom: Acrescenta camadas de tensão ao cotidiano corporativo.
Lançado oficialmente nos cinemas brasileiros em agosto de 2021 (após circular por festivais internacionais como o ArtHouse Asia Film Festival, na Índia), Homem Onça gerou debates intensos entre os críticos de cinema.
Enquanto alguns analistas apontaram que o roteiro transita por diversas frentes — ora abraçando o thriller político, ora enveredando pelo melodrama intimista ou pelo realismo fantástico da onça —, a força da produção foi amplamente reconhecida nos circuitos competitivos. O filme integrou a prestigiada mostra competitiva do 49º Festival de Cinema de Gramado, onde acumulou indicações importantes, culminando na consagração de Bianca Byington, que venceu o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante por sua atuação marcante.
Filmes exibidos de madrugada na TV aberta muitas vezes passam despercebidos pelo grande público, mas encontram no Corujão o refúgio perfeito para cinéfilos que valorizam o cinema nacional autoral. Homem Onça não é uma comédia pastelão ou um passatempo leve; é um drama que exige atenção, provoca reflexões sobre a nossa história recente e nos faz questionar até que ponto o ser humano se resume à sua utilidade produtiva.
Se você perdeu o início na madrugada ou quer reassistir prestando atenção nos detalhes metafóricos da direção de fotografia de João Atala e na trilha sonora, aproveite o embalo da exibição de hoje na Globo para mergulhar nessa obra indispensável da cultura brasileira!
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