Uma jornada para corajosos: Prada, inverno 2016 masculino

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A senha do wi-fi da Prada é “miumiu”. Essa foi a primeira informação recebida na visita ao QG da grife no 36 da Via Fogazzaro, em Milão. Muita coisa viria pela frente. Ali, a marca reuniu nomes da imprensa mundial para o chamado “resee”: oportunidade de (re)ver, no cenário do desfile, mas com manequins estáticos ao invés de modelos em movimento, a coleção de inverno 2016 masculino apresentada, em show, dois dias antes.

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A história oficial é sobre a jornada de homens aventureiros e, mais importante, como isso se traduz para o core de um guarda-roupa masculino. O set de arena tornou homens do mar e da caça em protagonistas de um espetáculo sobre roupas vividas e desafios contornados. A primeira coisa a fazer os olhos brilharem eram as camisas. Mais curtas, de aspecto amassado e com truques que adicionavam vida via styling — colarinhos destacados, abotoamento desvirtuado — levavam a arte do artista francês Christophe Chemin. Retratavam as batalhas (e algumas recompensas) vividas pelos homens da coleção e davam o tom de jornada dura à frente. Conectar a moda com o seu tempo é uma das lições mais gostosas de ter com o trabalho de Miuccia Prada. Aqui, não faltou pano pra manga, mas as peças serviram bem a quem usa desfile como wishlist.

Na sequência, o bloco inspirado por homens da floresta ganhou códigos da alfaiatria britânica e detalhes que só poderiam ser apreciados em uma inspeção tão detalhada como esta: barras curtas por toda a coleção, lã com tratamento especial de aparência robusta e peso pena, sapatos de solados robustos com protetores e costuras aparentes como se reforçadas à mão, bolsa utilitária para usar cruzada no torso ou com alça de mão de passada dupla. Os tricôs curtinhos tinham acabamento artesanal como se feitos à mão, como no coat of many colors composto por quinze tons diferentes de patches de lã.

Assim como no desfile, o resee também apresentou o pre-fall feminino da Prada, em sintonia perfeita com os looks deles. As camisas viraram chemises desconstruídos usados com meias grossas (lembra quanta meia boa a marca já fez?), acompanhados por vestidos de veludo de elegância sisuda a la anos 40 (tipo look pra Carey Mulligan). A Prada lança dois novos modelos de bolsas de tamanho compacto, com logo ampliado ou em versão com fivela, elas ganharam alças grossas de couro para usar nos ombros ou na mão em passada dupla. Chegam às lojas em maio.

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Leituras politizadas são tem-que-ter dos desfiles da Prada, mas sugiro uma abordagem sobre o papel das roupas masculinas discutido aqui. Na ressaca da ostentação excessiva de quem representa aos olhos da moda a elegância masculina, virar os olhos para uma coleção que ressalta a virtude das experiências vividas pela narrativa da Prada parece, de fato, um tipo de luxo mais legal de acompanhar. Se no verão 2016 feminino Miuccia investigou os códigos da roupa de trabalho delas, ela reconstruiu agora o closet deles referenciando o senso de dignidade das aventuras e das profissões de seus personagens. Comprar o jaquetão marinho é insuficiente para colher o valor agregado da coleção. É preciso viver nele. Encarar o desafio de refletir sobre e colocar em prática uma visão tão focada do core do guarda-roupa masculino é uma jornada para corajosos.

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