Sobre Chelsea Handler, Netflix e a audiência de nicho

Chelsea Handler não é a sua comediante feminina habitual. Alçada à fama por sua trajetória no canal E!, famoso por qualquer-coisices com famosos, sua presença veio para contrabalancear as horas e horas dedicadas ao universo de celebridades 24/7 da emissora com muita ironia, comentários ácidos e uma voz que desafia todas as convenções sobre a presença feminina na televisão.

A notícia desta quinta-feira (19) foi significativa: depois de sete anos no comando do único talk-show noturno comandado por uma mulher, o seu Chelsea Lately, a comediante e empresária conta agora que, com o fim do contrato, vai se dedicar a uma iniciativa ousada: um novo programa que repagina o formato de seu atual no Netflix, serviço de streaming que vem desafiando os padrões de como se assiste televisão em tempos de internet. Entre piadas infames e episódios provocadores (ou cotidianos, dependendo do seu ponto de vista) levados cruamente para a tv Chelsea promete revolucionar o serviço como a primeira atração diária do canal online, mostrando o interesse do Netflix em conquistar seus assinantes de uma nova forma, que faça com que o espectador volte com mais frequência ao serviço ao invés de assistir apenas de forma acumulativa os seus já consagrados hits (House of Cards e Orange Is The New Black).

Chelsea em um quadro de seu início no canal E!, dando dicas de moda para senhoras.

Considero Chelsea uma de minhas maiores inspirações do novo showbiz. Personalidades que se tornam famosas hoje em dia não seguem mais os moldes de uma estrela à moda antiga; quantos nomes atualmente conseguem de fato agradar um público tão diversificado como o da televisão? Handler respondeu essa questão e fez disso um de seus diferenciais desde seu começo no stand-up, onde abria detalhes de sua vida sexual e do background familiar desvirtuado como arma para ganhar espaço no meio tão dominado por nomes masculinos dez anos atrás. Ao ganhar aval criativo em um canal a cabo de pouca relevância, Chelsea teve liberdade para explorar o nicho que começara a delimitar: uma parcela de audiência em sua maioria feminina (os gays vieram na sequência), cansada de receber personalidades de figura de fácil digestão e politicamente correta. Com muitas piadas sobre sexo, drogas, ofensas à caretice de famosos e o amor declarado pelo álcool, aproximou-se de forma muito mais potente de seu público, que respeitava a sua honestidade sem filtros e procurava algo mais crível do que as entrevistas e gags genéricas de seus concorrentes.

Chelsea Handler entre Sandra Bullock, uma das amigas famosas, e Chuy, seu sidekick no talk show "Chelsea Lately"
Chelsea Handler entre Sandra Bullock, uma das amigas famosas, e Chuy, seu sidekick, um anão mexicano ex-presidiário e estrela de filme pornô,  no talk show “Chelsea Lately”

O público, depois de cativado, abriu o bolso. Depois do lançamento de seu primeiro livro, My Horizontal Life, cada um dos títulos lançados na sequência foram ao topo da lista dos mais vendidos do NY Times (uma espécia de validação das maiores para qualquer escritor norte-americano) — como se não bastasse o topo, ao lançar Chelsea Chelsea Bang Bang e alcançar o slot #1, o lugar de baixo também respondeu à turnê promocional e foi ocupado por sua publicação anterior. Um fracasso na trajetória de sucesso serviu para mostrar o que acontece quando se tenta abraçar uma parcela maior, e mais genérica, da audiência: a adaptação para a TV aberta de seu livro Are You There Vodka? It’s me, Chelsea, transformado em sitcom, durou poucos episódios antes de ser cancelado.


Jennifer Aniston, outra de suas famosas amigas, apresenta o prêmio de Mulher do Ano em cerimônia da revista Glamour US, em 2011.

Dona de uma fortuna de respeito, fruto dos livros (quem é que não lê mais, mesmo?), programa de TV, um braço editorial próprio e uma produtora, Chelsea mostrou que o foco em um nicho verdadeiramente relacionado à persona levada da vida pessoal para o seu business pode, sim, garantir um retorno financeiro que se equipara às iniciativas destinadas ao grande público. Além disso, quem assiste a qualquer entrevista ou matéria sobre Chelsea percebe que essa aposta não é apenas uma escolha profissional; ao dar uma voz que não era até então reconhecida a um grupo tomado, por tanto tempo, como secundário, Handler ajuda a validar a cultura de nicho e faz questão de ser ativa no incentivo ao empoderamento de quem quer que seja visto como minoria.

Um pouquinho de tudo isso está no papo que Chelsea bateu sobre sua trajetória e sua visão com Gwyneth Paltrow, mais uma das amigas estreladas, em um encontro promovido pela organização Live Talks LA, que vale assistir no player abaixo. Em entrevistas mais recentes, ela conta que, com o fim de Chelsea Lately, pretende aproveitar um pouco do tempo de folga; o novo programa no Netflix vem apenas em 2016.

 

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