Pitti Uomo 89: o maior gentlemen’s club do mundo prepara o terreno para novas gerações

Duas vezes por ano, o Fortezza da Basso recebe a maior feira de moda masculina do mundo: a Pitti Uomo, realizada pela rede de feiras Pitti Imagine. Entre 12 e 15/01, o evento ganhou sua edição #89 disposta pelo espaço enorme da locação, um labirinto repleto de grifes italianas e internacionais (o ratio é quase de 50%) com araras e mais araras de lançamentos para o inverno 2016 internacional, que desembarcam nas lojas a partir de setembro.

Vale tudo: etiquetas renomadas de alfaiataria italiana e britânica, um sem-fim de marcas focadas em acessórios, dos tradicionais artigos de couro aos itens casuais e esportivos, labels de cases de smartphone, barracas de óculos, pop-up de décor, estandes tipo flagship store e corredores dedicados a talentos recentes. Focada nos negócios, mais de 30 mil credenciados (compradores, imprensa e convidados) fazem rondas e fecham pedidos entre um espresso (mais um cigarro) e outro. Perder-se entre os caminhos sinuosos do forte é fácil, mas nenhum tour, ainda que desorientado, sai imune às informações extra de estilo masculino dispostas pelos corners.
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A ação é outra na praça central, neste ano decorada com portraits em preto e branco de homens de diferentes gerações (tema da edição). É notável o interesse das publicações e seguidores do assunto pelo estilo de rua (#streetstyle), por mais desconectado da realidade que grande parte do registro pareça a cada temporada. A Pitti é um paraíso para fotógrafos atrás do “estilo exuberante italiano”. Convidados de olho na fama de alguns tantos cliques comparecem em peso. São apelidados carinhosamente de homens-pavão e exibem desde produções ricas em tons de uma cartela impensável para os clientes luxuosos das transações da feira (roxos, amarelos, verdes e azuis de alta intensidade dos visitantes encontravam poucos correspondentes nas grifes expositoras). Também navegam por referências de uma época na qual não se vive mais, tomados por uma elegância saudosista que empolga caçadores de qualquer clique.

Numa primeira visita pela feira, e no estágio atual de saturação deste formato de registro que vende personagens ficcionais para uma indústria sedenta por imagens a todo momento, o fenômeno impressiona, para o bem e para o mal. Parece implicância, mas o assunto estendeu-se em publicações focadas no público masculino. “São estes os looks mais irritantes da Itália?” perguntou a GQ norte-americana, enquanto Guy Trebay, do NY Times, ou qualquer legenda do instagram da Esquire estenderam a discussão. A última, dona de uma cabine fotográfica em uma das esquinas da praça principal, optou por produções de elegância comedida apelidada de #TheNewStyle, de imagem mais crível aos seus leitores, para os registros. Note também os cliques de Scott Schuman, do The Sartorialist, e leve as observações acima em consideração para entender porque, numa feira de moda masculina, ele retratou três nomes femininos.

Se a exuberância exagerada ficava para o lado de fora da feira, o que há lá dentro? As possibilidades do guarda-roupa masculino, como se vê nas passarelas das outras cidades da temporada de moda, são infinitas. Deixaram há tempo, ainda bem, o range tão delimitado do que aparece nas “ruas reais”. A missão de valorizar qualidade, história, tradição e estilo à prova de tendência cabe à Pitti, ainda que esta se mostre conectada com novos caminhos do segmento. Quão emocionante pode ser um passeio por uma sequência sem fim de casacos de lã cinza, sobretudos pesadíssimos para o inverno europeu (apesar do frio fazê-los parecer ainda mais especiais) ou suéteres de cashmere se não há, de fato, algo a ser celebrado ali?

Microtendências podem ser enumeradas rapidamente por quem procura informação digerida, ainda que estas pareçam recorrentes — já são, na verdade, clássicos: jaquetas influenciadas por uniformes militares, o reinado dos cappottos de impacto, calças mais amplas, jaquetas perfecto em mil variedades de couro, brogues de couro com solado grosso de borracha para aventureiros, óculos de armações coloridas e inusitadas e camisas renovadas por grafismos que adicionam beleza interior ao exterior classudo. Tome, mais uma vez, o olhar de Scott Schuman como referência (como um nome americano de Indiana navega tão bem pela sprezzatura italiana?) e preste atenção nos básicos criados pelo fotógrafo em parceria com a Roy Roger’s, marca de 72 anos de idade, renomada por seu jeanswear premium: um blazer cinza de dois botões mais bolsos e lapelas amplas, uma jaqueta de camurça marrom, calça jeans de denim bruto, cintura alta e modelagem ampla e uma parka usada sobre malha de gola rulê. Funcionam como um lembrete de que um guarda-roupa masculino clássico, de estilo consistente, se constrói pouco a pouco, sem o fervor acelerado de tendências.

A Pitti Uomo se movimenta a mano a mano, principalmente no trato entre vendedores e clientes. Buyers estão atrás de apostas certeiras para abastecer araras e caixas de loja. Grifes, por outro lado, investem para reforçar as qualidades que sustentam a base de seus nomes, reverberadas entre cafés, risadas e cumprimentos a cada estande. Dá para compreender porque, para um olhar novato, a área da feira que fecha planilhas de compra pareça mesmo um grande gentlemen’s club.

O feirão de negócios não precisa, obrigatoriamente, de arrojo criativo para garantir seus números, mas reúne iniciativas notáveis a fim de mostrar que está a par dos desafios contemporâneos de seu mercado. Recebe, a cada edição, um estilista internacional convidado, de preferência de carreira mais breve, para desfile-panorama de sua carreira; Junn.J, nome coreano com nove anos de marca, foi o da vez. O evento é palco também para ações que aproveitam a plataforma estabelecida em Florença: um desfile-instalação apresentou nova parceria da Adidas enquanto a rua que concentra as lojas grifadas da cidade recebeu a nova linha Superga X Del Toro. O renomado prêmio oferecido pela tecelagem The Woolmark Company (que já teve Yves Saint Laurent e Karl Lagerfeld entre os vencedores) cobre a demanda pelo lançamento de novos talentos. Inovação por associação é ferramenta quente de branding também: a automobilística Mini promoveu, nesta edição, um espaço com seis nomes novatos, uma miniseara de moda mais animada como as jaquetas que misturam matéria-prima tradicional com o toque esportivo do neoprene e patches de inspiração artística da Na Di Studio.

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Já que a Itália é vista como um polo mundial de moda masculina, há também espaço na Pitti para refletir sobre seus processos. A IHT Ethical Fashion Innitiative, uma joint agency das Nações Unidas com a Organização do Comércio Mundial, usa pela segunda vez a feira como plataforma de visibilidade para o projeto Generation Africa. Com desfile coletivo apresentado numa área industrial vizinha ao Fortezza da Basso, revelou quatro marcas da África do Sul e da Nigéria unidas pela produção responsável, pela capacitação profissional de mão-de-obra em seus países de origem e pelo olhar nativo sobre a riqueza cultural tão diversificada dos países que representam. No casting, nomes recrutados pela aliança com a Lai-momo, associação italiana que visa a integração da população de refugiados, ganharam a passarela sem distinção entre os modelos, ilustrando a miscigenação orgânica proposta pela ação.

“Nosso desejo é criar de fato um pólo de intercâmbio que dê a devida atenção aos talentos de uma população com incrível potencial criativo. Olhe para estas marcas. Você está presenciando os primeiros passos a caminho de um novo futuro para a moda!”, enfatizou Simone Cipriani, chefe fundador do Ethical Fashion Initiative. Com a moda italiana reconhecida pela tradição histórica movimentando um volume crescente de negócios em seu cuore, a Pitti completa o círculo de seus mecanismos de ação e aponta, com mira certeira, para os rumos que ajudarão a definir o seu futuro.

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