Estilo de narrativa

Marcela Temer ganhou cobertura de moda por conta da primeira aparição oficial após a manobra política que instaurou o marido como presidente. No Estado de S. Paulo, o vestido branco da marca brasiliense Luisa Farani (R$ 610 na etiqueta) “conferiu feminilidade ao visual (…) cumpriu o protocolo de maneira bem despretensiosa. E foi, justamente, essa despretensão que trouxe sofisticação ao look”. Na Folha de S. Paulo, “produziu mensagem de limpeza e simplicidade cujo papel pode ser lido como contraste ao clima de ebulição dos protestos anti-governo”.

O raciocínio que resulta neste tipo de cobertura é compreensível;  as interpretações, não. A oportunidade de conquistar cliques não passou perdida, mas parece ainda mais problemática quando justaposta ao histórico dos mesmos veículos na cobertura dos acontecimentos recentes em torno do impeachment e das manifestações. Tivemos uma presidenta no comando nos últimos cinco anos; com exceção dos looks de posse, racionalizações sobre o poder de seu estilo não ganharam a mesma projeção.

As notas também atribuem ao vestido uma narrativa fashionista que não está firmada. Quando é que se conquista aval para interpretações como esta? O potencial apaziguador da produção é mais significativo por ela estar dentro dos quesitos estéticos que a moda usa como padrão? O processo que colocou Marcela nesta posição é tão improvável que nós mal a conhecemos, salvo pelo infame perfil publicado, e muito repercutido, em abril deste ano. Quando ela não quer imprimir uma mensagem de paz ela veste o quê?

Aprofundar a análise da roupa frente o contexto que a rodeia é tarefa desafiadora. Não bastam leituras forçadas para injetar complexidade à cobertura; o resultado é facilmente invertido com interpretações limitadas que insistem na reprodução de paródias das possibilidades mais interessantes que a discussão em torno da moda permite. De repente, o vestido branco da paz, símbolo de uma tal elegância, não parece tão inocente quando encobre perguntas caras à moda sobre empoderamento feminino que custam tanto a sair de baixo dos panos.